A violência que destruiu uma família
Daniel Ramos da Silva foi morto com um tiro na cabeça após um jogo do Sport
Morte de Daniel Ramos da Silva, em 2001, a primeira no estado causada por violência entre organizadas, foi esquecida pelo poder público
Após a morte do único filho homem (teve outras duas filhas), ela se entregou ao alcoolismo e não via mais graça na vida. Tinha planos para Daniel. Nerita tinha certeza que a vida da família ganharia fôlego quando o garoto completasse a maioridade. O emprego com carteira assinada era o sonho de Nerita. Daniel não pôde realizá-lo. Mas realizou outro.
Seu nascimento foi um sonho concretizado. Quando engravidou do garoto, Nerita trouxe dias de felicidade e expectativa para toda família. Pouco importou se o pai ‘o fez’ e nunca mais apareceu. “Minha irmã nunca teve sorte com homem. Eles vinham, faziam os filhos e iam embora”, declarou Rosângela Ramos, irmã de Nerita. Daniel recebeu atenção especial da tia materna, que cuidava do sobrinho enquanto a irmã trabalhava em casa de família, e também da avó, Lindinalva Ramos da Silva, que anos mais tarde se mudaria para São Paulo.
A mudança da mãe para o Sudeste foi outro baque para Nerita. A distância da mãe e, mais na frente, seu falecimento. Nerita foi definhando aos poucos. A partida prematura de Daniel desencadeou um processo de alucinações e choros compulsivos na mãe, que na época tinha 36 anos. Depois do enterro do filho, passou praticamente dois meses chorando. No trabalho, não conseguia cumprir a carga horária. Voltava para casa no meio da tarde. “Ela dizia que via o rosto dele por todo lugar. Só vivia chorando e dizia que não queria mais trabalhar. Quando a gente procurava por ela, já sabia que estava em alguma barraca bebendo”, conta Rosa.
Três anos após o falecimento do filho, ela entregou os pontos. Tragédia incompreensível para quem a conhecia. Logo, Nerita que era o retrato fiel da garra e disposição. Mulher de raça que passou dois dias dormindo ao relento com receio que invadissem um pequeno terreno, onde – com a ajuda da ex-patroa – construiria sua moradia. Espaço simples, de portas amarelas, dois quartos, banheiro e cozinha. A casa ainda está de pé. Nerita, não.
Depois de passar a noite bebendo em uma festa no Sesi do Ibura, ela foi atropelada por um carro e, ao tentar se equilibrar e ficar de pé novamente, foi atingida por um ônibus. Há quem diga que Nerita se jogou. A certeza que se tem é que ela desistiu de sentir saudades de Daniel.
Diario de Pernambuco

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