Copa do Mundo, racismo e volta ao Brasil: Grafite passa carreira a limpo
Em entrevista para o Esporte Espetacular, atacante do Santa Cruz relembrou momentos marcantes de sua trajetória de quase 15 anos no futebol
O CASO DESÁBATO
Acho que o engajamento aqui no Brasil é muito escasso em relação a essa questão. Para nós jogadores, que estamos na mídia, que estamos no foco, já é difícil. Imagina pro trabalhador que está no dia a dia, o negro, o branco, o mulato… Sei lá. Olhando hoje pra minha carreira, não foi bom (o episódio de racismo em que foi envolvido na Libertadores de 2004). Pra minha carreira ficou marcado como um ponto negativo. Mas, para a causa, para o movimento negro, acho que foi bom porque começou um engajamento maior, começaram a olhar com outros olhos. Só que o tempo foi passando, falaram que eu tinha seis meses pra prestar a queixa-crime. No começo tinham muitas pessoas ao meu lado, mas, com o tempo, aquelas pessoas foram saindo, foram sumindo e, quando vi, eu estava sozinho. Aí achei que não tinha necessidade de levar aquilo adiante. Não estava sendo bom pra mim, não estava sendo bom pra minha família. Na época eu tinha minhas duas filhas na escola, já haviam alguns comentários, aí eu resolvi não continuar com a queixa crime. E acabou ali pra mim. O Desabato seguiu a vida dele, eu segui a minha. Eu lamentei muito ele ter ficado preso, porque por mais que ele tenha errado pra uma pessoa ficar presa, assim, dois dias preso é complicado, eu vejo pelo lado humano também. Aconteceu, passou, ficou marcado, mas paciência. É o futebol.
COPA DE 2010
Naquele dia (convocação), estava um auê lá em casa, na Alemanha. Tinha umas 15 pessoas. Deu 16h, 16h10… Eu pensei: "quer saber? Vou lá para fora". Tinha um balanço da minha filha do lado de fora, sentei lá. E começou… Os caras aumentaram a TV e eu fiquei ouvindo. De repente ficou um silêncio na sala. Normalmente, nas outras convocações, falavam os nomes dos jogadores. Nessa, os nomes apareceram no telão, não foi? Foi um negócio assim. Era bem rápido. Apareciam os nomes, falava… Aí ficou um silencio. Eu abaixei a cabeça, fiquei pensando... Daqui a pouco escutei uma gritaria. Quando eu olhei pra sala, estava todo mundo saindo correndo na minha direção. Meus amigos, minha esposa, minhas filhas… Aí já comecei a chorar. E pensei: "Não acredito, Copa do Mundo... Pô, quantos jogadores brasileiros, bons jogadores, ainda mais no ataque, onde todo ano aparecem muitos bons jogadores, já tiveram essa oportunidade?".
RETORNO AO BRASIL
Se eu estivesse nos últimos quatro anos na Europa, talvez não tivesse muita dificuldade em nível físico, tático e técnico. Mas passei os últimos quatro anos no Oriente Médio e o nível do futebol lá não se compara com o nível daqui, mesmo sendo a Série B ou Série C. O futebol aqui é mais rápido, a dinâmica é maior, a bola não para, é contato toda hora. E lá em Dubai, não. Lá, eu jogava uma vez por semana, treinava uma vez por dia, sempre à noite. O nível técnico, tático, físico e até mental é muito mais baixo. Aqui tem dia que treina de manhã e de tarde, os treinos têm uma volúpia grande, é jogo de terça e sexta, terça e sábado. Sinto um pouco essa falta de ritmo. Faz dois meses que eu estreei e ainda estou me adaptando, ainda tenho algumas dificuldades. O começo foi muito bem, os gols apareceram e, agora que está baixando aquela adrenalina, aparece mais a dificuldade no decorrer dos jogos. O pessoal já tava até falando: “Pô, o Grafite não está num bom momento, o Grafite não está fazendo gol”. Mas é coisa do futebol. Tem dia que a bola vai entrar, tem dia que a bola não vai entrar.
GloboEsporte.com

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