Relíquias Olímpicas: Yane Marques e o sonho da medalha olímpica que virou realidade
Em 2012, Yane Marques voltou para casa com a medalha de bronze olímpica e desfilou em carro aberto
Atleta foi a primeira pernambucana a conquistar uma medalha individual nos Jogos
O passaporte olímpico veio com a medalha de ouro. Até então, aquela era a maior conquista da pernambucana Yane Marques. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, disputado no Rio de Janeiro, a sertaneja, aos 23 anos, vencia a disputa do pentatlo moderno. A primeira colocação lhe garantiu presença na Olimpíada de Pequim, no ano seguinte. O sonho olímpico se tornava realidade. Mas havia muito mais além desse sonho.
Não no primeiro capítulo. Neste, a honra maior foi a participação. Também por conta das barreiras encontradas por Yane. Logo na chegada a Pequim, a pernambucana se deparou com o primeiro obstáculo. A sua mala chegou totalmente danificada. Pior. Os equipamentos que seriam usados na equitação e tiro estavam quebrados. E não havia tempo hábil para mandar buscar no Brasil as peças para reposição. “Fiquei muito triste. Passei quatro horas em negociação para tentar resolver o problema. Estava praticamente chegando o dia de competir e eu sem meu material. Por fim, tudo foi resolvido por lá mesmo. Mas usei equipamentos aos quais não estava acostumada”, conta Yane.
Tirando esse contratempo, a pernambucana recorda da boa energia quando pisou na Vila Olímpica. “A energia é única. Só estando lá para sentir. E Pequim estava pronta para receber a todos. É tanto que meu problema inicial, com a bagagem, foi solucionado”, acrescenta.
Até a prova do hipismo, tudo corria surpreendentemente bem para a pernambucana. Eis que surge em seu caminho um cavalo arredio (o animal é escolhido por sorteio), numa pista pesada. Por mais que fizesse esforço, o animal não obedecia aos comandos de Yane. Com isso, foi inevitável cometer as faltas. “Até então, eu vinha bem na disputa. Para a primeira participação em uma Olimpíada, eu estava brigando bem. Por isso, considero minha posição final aceitável. A 18ª posição foi inédita para o meu país. Saí com a sensação de ter feito o melhor, mas ainda pairava na minha cabeça que podia ter feito algo mais. Basta o cavalo ter feito a parte dele”, recorda a pentatleta.
No fim, Yane terminou a sua participação na 18ª colocação. Com a energia renovada para ir em busca de sonhos maiores.
Londres, o segundo capítulo
A participação em Londres foi garantida de forma semelhante à anterior. No Pan-Americano de Guadalajara, México, Yane Marques terminou com a prata. O fato de ser a melhor sul-americana na prova - ficou atrás apenas da norte-americana Margaux Isaksen -, rendeu-lhe a vaga em Londres. A sua segunda participação nos Jogos. A evolução e a maturidade adquirida nos últimos anos lhe permitiam sonhar com algo além da simples participação.
Para isso, Yane não desacelerou. A sua preparação foi até o limite. Na caminhada até o desembarque final em Londres, fez algumas paradas. Uma delas foi na França. Para afinar, sobretudo, o jogo da esgrima. Participou do Open Francês de pentatlo moderno. Na competição, deixou para trás Amelie Cazé, tricampeã mundial na modalidade, e subiu no topo do pódio.
Roma, na Itália, foi o último endereço da pernambucana antes da chegada na capital inglesa. E ao colocar os pés no aeroporto de Heathrow ficou retida por mais de duas horas. Tudo por causa da pistola - a laser - que trazia na bagagem. O foco não permitiria prejuízos por qualquer contratempo. “Mandamos um monte de papéis para eles autorizarem a entrada da pistola. Na hora de entrar no país deles, foi difícil explicar que era meu equipamento de competição”, relembra. No final, deu tudo certo.
Quando chegou na Vila Olímpica, a pentatleta dividiu, por uns dias, o apartamento com a taekista Natália Falavigna - mesma companheira de quarto de Pequim. E manteve o foco absoluto na disputa. Evitou badalações. Pouco saía. Somente quando a mãe, dona Gorette, chegou a Londres, foi que ela abriu uma exceção e foi encontrá-la em um shopping que ficava ao lado do alojamento. Encontro rápido. Matou a saudade e retornou para a concentração.
No dia da prova, ela recorda que acordou muito bem. Alimentou-se tranquilamente (pão, geleia e ovos) e seguiu para o parque olímpico, que abrigou os jogos de esgrima. Antes de pisar na pista, de fone nos ouvidos, curtiu o som da banda Aviões do Forró. “Eu gosto muito de música. Sempre me ajuda a relaxar, tirar um pouco a tensão. Geralmente, fico ansiosa em dias de provas e em Londres foi um pouco diferente”, explica a atleta.
A saga prosseguiu até a prova final, o evento combinado. “Tinha feito uma temporada regular. Só queria reproduzir isso na prova. Não estava contando com o fator sorte. E consegui isso”, explica. Um filme ainda povoa o pensamento de Yane. Os momentos finais da corrida, para cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. “Nos 400 metros finais, lembro que tinha uma ladeira bem íngreme. Logo atrás de mim vinham a norte-americana e a chinesa. Vinham forte. Pensei: elas têm até aquela subida para me passar. Senão, só se eu cair ou desmaiar e não completar a prova. Quando entrei no estádio, foi uma perna atrás da outra, uma perna atrás da outra. Até cruzar a linha de chegada.”
A medalha de bronze estava garantida. Aos 28 anos, o momento era de festejar, mas sem flertar com o próximo desafio. A volta ao local onde tudo começou já estava delineado no horizonte.
Rio, o terceiro capítulo
Complexo Deodoro, Rio de Janeiro, 2016. A realização do sonho dos sonhos materializou-se para Yane Marques com mais uma medalha de bronze. Na Alemanha, em 4 de julho de 2015, Yane Marques conquistou a terceira colocação no Campeonato Mundial de Pentatlo Moderno. Assegurava, desde já, a participação na sua terceira Olimpíada. Talvez a última. A mais especial de todas. Uma olimpíada disputada em casa. Onde tudo começou.
Aos 32 anos, Yane não define os Jogos do Rio como o fim do seu ciclo olímpico. O foco não é no futuro, mas, sim, no presente. Em seu território, a pernambucana quer honrar a sua carreira. Numa modalidade que depende de fatores alheios ao desempenho individual - como ter sorte na definição do cavalo -, isso não passa por uma medalha, necessariamente. Passa por chegar a ir além dos seus limites. “Uma perna atrás da outra.”
Quando cruzar a linha de chegada, Yane terá a sua vitória. Com medalha ou sem medalha, terá concluído mais um ciclo de abdicação, de entrega, dedicação absoluta. O terceiro, talvez o último. O ponto final de uma carreira vitoriosa, de uma carreira exemplar para qualquer atleta, de qualquer modalidade.
Diario de Pernambuco

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