Sem infraestrutura adequada, ciclistas recorrem à contramão e às calçadas no Grande Recife
Obras na orla de Boa Viagem geram reclamação de pedestres e ciclistas (Foto: Rafael Vieira/DP)
Estudo revela que, em alguns trechos da RMR, quase metade dos ciclistas trafega na contramão, comportamento associado à ausência de infraestrutura cicloviária adequada
Em um monitoramento de apenas 14 horas, mais de 23 mil viagens de bicicleta foram registradas em 12 pontos da Região Metropolitana do Recife. No entanto, o crescimento do uso do modal lida com a falta de infraestrutura. Um levantamento da Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) mostra que, em diferentes municípios, ciclistas recorrem à contramão, às calçadas e até precisam descer da bicicleta para vencer obstáculos no caminho.
Em São Lourenço da Mata, 46% das viagens observadas foram feitas dessa forma. O comportamento também apareceu com frequência em Jaboatão dos Guararapes (31,5%), Itapissuma (26%), Igarassu (19%) e Olinda (18%).
Os dados fazem parte do Relatório de Contagens de Ciclistas 2026, estudo que analisou pontos estratégicos em Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, São Lourenço da Mata, Paulista, Moreno, Abreu e Lima, Igarassu, Itapissuma, Ilha de Itamaracá, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, reunindo informações sobre volume de viagens, perfil dos usuários e comportamento no trânsito. O objetivo é subsidiar a reformulação do Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife.
De acordo com a pesquisa, circular na contramão não pode ser interpretado apenas como descumprimento das normas de trânsito. A análise técnica aponta que esse comportamento está relacionado, principalmente, à ausência de infraestrutura adequada e à necessidade de manter trajetos mais curtos e seguros.
Em São Lourenço da Mata, por exemplo, o índice de 46% é atribuído à existência de vias de mão única que não oferecem rotas diretas para quem pedala. Em Jaboatão, onde 31,5% das viagens ocorreram na contramão, o relatório afirma que o comportamento aumentou nos últimos anos em razão da falta de conectividade linear da rede cicloviária.
Já em Itapissuma e Igarassu, muitos ciclistas utilizam trechos em sentido contrário para acessar passagens em canteiros centrais consideradas insuficientes ou mal posicionadas.
A pesquisa também mostra que outras práticas consideradas irregulares seguem a mesma lógica. Em Abreu e Lima, 35% das viagens ocorreram sobre calçadas, enquanto Camaragibe registrou 23% e Moreno, 21%. De acordo com a Ameciclo, o uso do passeio é uma resposta ao tráfego intenso de veículos e à circulação constante de ônibus e caminhões em vias estreitas.
Já o ato de descer da bicicleta e empurrá-la, identificado principalmente em Igarassu (13%) e Abreu e Lima (10%), aponta dificuldades para atravessar cruzamentos e rodovias ou superar trechos onde a infraestrutura interrompe a continuidade do percurso.
Avenida Boa Viagem terá limite de velocidade reduzido (Foto: Mauricio Ferry/DP Foto)
O arquiteto e maquetista Claudio de Moura Sobral, conhecido como Cacau Sobral, de 52 anos, utiliza a bicicleta diariamente para ir ao trabalho e realizar outras atividades no Recife. Ele destaca que a falta de infraestrutura obriga o ciclista a ir para a contramão.
"Pedalar na calçada ou na contramão é algo que, para quem pedala diariamente, às vezes acaba sendo necessário em locais onde não existe estrutura cicloviária. Posso dizer que faz parte da minha rotina. No trajeto de casa para o trabalho, por exemplo, eu faço um pequeno percurso na contramão. Já a calçada eu praticamente não uso. Quando preciso passar por uma, eu desço da bicicleta e sigo a pé."
Já o cientista social Derick da Silva, de 34 anos, utiliza a bicicleta como meio de transporte desde 2017, quando ingressou na universidade. Cientista social, ele conta que passou a pedalar para reduzir o tempo de deslocamento entre Boa Viagem e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ele frisa que precisa ir para a calçada com a bicicleta "quando está muito trânsito e os carros não deixam passagem próximo ao acostamento. Em situações sem ciclovias, e com calçadas mais livres, se torna uma rota rápida de desvio. O que acontece com mais frequência mesmo são situações de buracos e pistas ruins que também acabam empurrando o ciclista para a calçada ou contramão."
Mesmo que esses comportamentos mostrem dificuldades enfrentadas pelos ciclistas, os números indicam que a bicicleta permanece como um meio de transporte consolidado na Região Metropolitana.
Durante o período de monitoramento, foram registradas 5.071 viagens em Jaboatão dos Guararapes e 3.968 em Olinda, os maiores volumes da pesquisa. Cabo de Santo Agostinho (2.421) e Ipojuca (2.416) também apresentaram fluxo elevado, enquanto municípios de menor porte, como Itapissuma (1.516) e Ilha de Itamaracá (1.631), registraram movimentação expressiva.
Para a entidade, esses resultados demonstram que o uso da bicicleta depende do tamanho da população e da dinâmica de deslocamentos e da função que o modal exerce em cada município.
Além disso, a maior parte dos municípios apresentou picos de circulação no início da manhã e, principalmente, entre 17h e 18h, período de retorno do trabalho e da escola. Em cidades como Jaboatão, Paulista, Camaragibe, Abreu e Lima e Igarassu, o movimento intenso já começa às 6h, indicando deslocamentos de longa distância.
Para a Ameciclo, comportamentos como pedalar na contramão, utilizar calçadas ou empurrar a bicicleta devem ser compreendidos como respostas às condições encontradas nas vias, e não apenas como escolhas individuais dos ciclistas.
Adelmo Lucena