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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CASO BANCO MASTER

‘Master juntou do PCC ao STF’, diz denunciante da campanha digital contra o BC

Vereador Rony Gabriel expôs o esquema de contratação de influenciadores para atacar o BC após a liquidação do Master (Foto: Nathan Felipe Ribeiro / Gabinete de Rony Gabriel)


A decisão do vereador Rony Gabriel (PL), de Erechim (RS), de expor publicamente o esquema de contratação de influenciadores e páginas de redes sociais para atacar o Banco Central (BC) após a liquidação do Banco Master deu projeção nacional ao político e aprofundou a crise institucional em torno do caso.

Com quase dois milhões de seguidores no Instagram, o pré-candidato a deputado federal revelou ter recusado, em dezembro, convite para integrar o chamado “Projeto DV” — referência ao banqueiro Daniel Vorcaro — articulado por agências de marketing digital. No início de janeiro, ele passou a denunciar os bastidores da operação, que já vinha sendo monitorada pela Polícia Federal (PF).

Na quarta-feira (28), a PF abriu inquérito para apurar a atuação coordenada de ao menos 46 perfis suspeitos usados para deslegitimar a decisão do BC de liquidar o banco.

Segundo Rony, os influenciadores eram orientados a sustentar a tese de que a liquidação do banco teria sido precipitada. Os contratos poderiam chegar a R$ 2 milhões com o objetivo de alcançar 36 milhões de seguidores. A orientação era que os influenciadores divulgassem uma reportagem do portal Metrópoles que afirmava que o Tribunal de Contas da União havia visto precipitação na decisão de liquidar o Banco Master.

O vereador, que saltou da 25ª para a 9ª posição no ranking de engajamento político nas redes em 2026, afirma que o escândalo expõe uma rede que vai do crime organizado às altas esferas do poder. “O Master juntou do PCC ao STF”, disse à Gazeta do Povo.

Ele defende o avanço das investigações e a queda dos sigilos para alcançar todos os envolvidos. Veja os principais trechos da entrevista.

A Polícia Federal abriu inquérito para apurar o ataque orquestrado de influenciadores contra o Banco Central e favorável ao Banco Master, denunciado pelo senhor. Qual é a sua expectativa?

Rony Gabriel: Ainda não fui procurado pela PF para depor, mas estou à disposição da corporação para colaborar com as investigações. O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o trabalho da PF, mas manteve o sigilo de elementos de provas do inquérito principal do caso Master. Espero que os advogados possam ter depois acesso a tudo.

Ao denunciar a arregimentação de influenciadores por agências, o senhor disse que estava sujeito à sanção de R$ 800 mil por quebra de contrato de confidencialidade. Essa multa chegou a ser executada?

Rony Gabriel: Apesar de eu ter feito a denúncia e revelar nomes e termos envolvidos no negócio proposto, a retaliação prevista em contrato não ocorreu até agora. Contudo, aqueles que aderiram à negociação e foram mostrados a mim como modelo de conteúdo de mensagem a ser seguido seguem me criticando duramente nos seus respectivos canais.

Eles alegam que não apresentei o contrato assinado por eles, o mesmo que também me foi oferecido. O fato é que tenho provas do que foi proposto e dos links dos vídeos postados por eles, enviados como amostras do trabalho.

Mesmo após terem os nomes expostos na denúncia, influenciadores de direita não tiveram abandono significativo de seguidores. A que se deve isso na sua opinião e o que deve ocorrer com eles após investigações?

Rony Gabriel: Após a lista formal desse pessoal todo aparecer para a imprensa, após o avanço das investigações da PF, eles vão sentir o efetivo impacto de suas decisões em participar daquela orquestração. Nomes cujos posts me chegaram por e-mail como modelos já estão sob investigação e foram revelados pela colunista Malu Gaspar, de O Globo. Todas as negativas deles cairão de vez por terra em breve.

Qual foi o efeito imediato da divulgação que o senhor e Juliana Moreira Leite fizeram sobre suas recusas em participar do ataque digital coordenado ao BC, mediante a contratação de influenciadores?

Rony Gabriel: A nossa denúncia no começo de janeiro sobre termos sido procurados para atuar como influenciadores digitais em favor do banqueiro Daniel Vorcaro veio num momento decisivo. Ela possibilitou que o gravíssimo escândalo do Banco Master não perdesse destaque no noticiário, dando impulso ao tema quando ele começava a sumir, dando espaço a outros, como a situação de Nicolás Maduro, ex-ditador da Venezuela.

Fatos relacionados a conflitos de interesse do ministro Dias Toffoli e decisões atípicas dele como relator do caso vieram à tona e absurdos acabaram não sendo normalizados. Ficou claro também o viés nada técnico e totalmente planejado da busca por um parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) para fortalecer a narrativa de falha do BC.

É difícil dizer o que os inquéritos ainda revelarão sobre o escândalo do Master, mas espero que a PF tenha plena autonomia para investigar. Nesse sentido, torço para que o STF remeta o inquérito principal para a primeira instância, o que elevaria o nível de transparência.

Qual é, na sua visão, o papel da PF nessa crise do Master, considerando que a corporação tem sido alvo tanto de críticas quanto de elogios de grupos conservadores nos últimos anos, a depender de seus alvos?

Rony Gabriel: A Polícia Federal do Brasil é formada por profissionais qualificados e de perfis distintos. A maioria dessas pessoas trabalha muito bem, com total compromisso com sua missão perante a sociedade. Mas há uma parte delas que cumpre ordens capazes de minar a confiança da instituição. Apesar disso, na minha opinião, a PF faz historicamente um excelente trabalho em favor do Brasil e dos brasileiros.

Como o senhor vê o fato de parte da imprensa tradicional ter deixado de ignorar fatos que indicam abusos de decisões do Judiciário somente após a revelação de conflitos de interesse no escândalo do Master?

Rony Gabriel: Ficou claro que a crise gerada pelo caso Master acabou interferindo em interesses maiores, como grandes grupos financeiros, ameaçados pela perda de credibilidade das autoridades responsáveis pela regulação do setor. A percepção de grave risco a partir do que pode acontecer no país após determinadas decisões do Judiciário mobilizou atores de peso, criando uma divisão dentro de um arranjo entre poderes e parte da imprensa para não questionar fatos de flagrante ativismo judicial.

De certa forma, o escândalo financeiro mudou a percepção geral da corrupção. Se antes parecia haver um esquecimento ou alívio da punição para grandes crimes dos governos petistas e casos ridículos, como o da suposta importunação de baleia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), eram considerados graves, o noticiário se rendeu a situações realmente críticas, como os desvios do INSS e agora as operações de Vorcaro.

A impressão que me dá é de que outros vários esquemas corruptos estão ocorrendo simultaneamente e que estão sendo descobertos aos poucos. Uma hora tudo vai desmoronar.

Na sua avaliação, como funcionava o esquema de influência, corrupção e fraudes envolvendo o Banco Master, com ramificações nos três poderes da República?

Rony Gabriel: O que chama atenção é a lista de personagens com trânsito privilegiado em Brasília contratados por Daniel Vorcaro, que acabaram formando uma espécie de conselho informal do Master voltado a abrir portas no poder. Não se tratava apenas de lobby tradicional, mas de remuneração direta por meio de contratos de consultoria, pareceres supostamente técnicos e até inclusão de pessoas na folha de pagamento do banco como forma de garantir acesso institucional.

São mecanismos que operam nos bastidores e só vêm à tona quando o escândalo explode. Enquanto no mensalão se pagavam propinas para assegurar apoio no Congresso, o caso Master estruturou uma rede permanente de influência sustentada por vínculos formais — salários, honorários e contratos terceirizados — que funcionavam como canais privilegiados junto ao Estado.

Quando Lula tenta reduzir o episódio a um banqueiro isolado, ele ignora deliberadamente o círculo de poder construído ao redor do banco, que alcança Executivo, Legislativo e até o Judiciário. O esquema atravessa desde organizações criminosas até autoridades públicas, passando por políticos, instituições financeiras e lideranças religiosas. A pergunta central é: Vorcaro comprou todos ou foi apenas o rosto visível de um grande negócio? Quem é, de fato, o verdadeiro controlador do Banco Master?

Não faço acusações nem suposições, mas é impossível ignorar que a dimensão do escândalo sugere algo maior do que um único empresário. Talvez ele seja apenas a face mais exposta de uma engrenagem muito mais ampla — e sacrificá-lo para preservar o restante do sistema não será simples.

Como o senhor avalia a comparação que tem sido feita entre o senhor e o deputado Nikolas Ferreira, considerando que ambos são políticos jovens e conservadores, com influência nas redes sociais?

Rony Gabriel: É verdade que eu e o Nikolas, a quem admiro, temos muito em comum na trajetória e nas posturas. A comparação entre nós é, portanto, inevitável. Inclusive por sermos filhos de pastores evangélicos, termos estudado Direito, sermos pais de duas filhas e termos forte visibilidade nas redes sociais. Mas temos diferenças, como a de eu vir de uma cidade do interior, com menos de 100 mil habitantes e ser um pouco mais velho – 31 ante os 29 de Nikolas. O deputado, que é hoje uma referência mundial de jovem político, também tem discurso combativo e estratégico. E eu? Eu sou eu mesmo.

Com tantos políticos de direita ganhando exposição na internet por meio de edições e cortes de vídeos curtos, sua ascensão digital vem de análises longas sobre assuntos nacionais. É outro modelo?

Rony Gabriel: Não é um modelo meu, mas uma das formas de angariar seguidores fiéis e uma grande rede. Minha opção é ir na contramão do algoritmo, que facilita as visualizações e a exposição. Minhas análises longas despertam o interesse de quem quer mesmo saber do que estou falando. As pessoas assistem, se inscrevem no canal e compartilham a publicação. Assim, trata-se de crescimento orgânico e espontâneo.

Por Sílvio Ribas

CASO BANCO MASTER

Conexões com Lula, Mantega, Lewandowski e Jaques Wagner ligam escândalo do Master ao Governo do PT

(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)


A investigação sobre o Banco Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro e passou a representar um problema político direto para o governo Luiz Inácio Lula da Silva. As possíveis conexões do empresário Daniel Vorcaro com integrantes do Executivo, contratos públicos firmados com empresa da qual ele é sócio e a atuação de figuras próximas ao governo colocaram o Planalto no centro do debate sobre conflitos de interesse e transparência institucional.

O caso ganhou dimensão política com as suspeitas de conflito de interesses do ministro Dias Toffoli, que conduz o caso no Supremo Tribunal Federal, e do ministro Alexandre de Moraes, pois sua mulher fechou um contrato milionário para defender o Master como advogada.

O escândalo se espalhou e atingiu o Poder Executivo quando vieram à tona neste mês com as revelações de: um encontro de Lula com Vorcaro fora da agenda oficial, a atuação do ex-ministro Guido Mantega como interlocutor do banqueiro, a consultoria jurídica prestada ao Banco Master pelo ex-ministro Ricardo Lewandowski e a proximidade do senador Jaques Wagner, do PT, com personagens ligados ao grupo. Embora não haja acusações formais contra esses nomes, as relações expostas elevaram a pressão política sobre o governo.

Nos bastidores do Congresso, parlamentares da oposição articulam pedidos para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), enquanto aliados tentam conter o desgaste e reforçar o discurso de que as investigações seguem de forma técnica e independente.

Para o jurista Fabrício Rebelo, o fato de o caso tramitar sob sigilo e em um formato considerado por ele atípico abre espaço para exploração política. Segundo ele, esse cenário pode reacender o discurso de combate à corrupção e mobilizar setores da oposição.

“Por se tratar de mais um procedimento atípico e coberto por sigilo, se torna natural a exploração política do caso com o fundamento de estar havendo algum tipo de proteção aos envolvidos. Essa leitura tem potencial para retomar a pauta de combate à corrupção no país e mobilizar novamente a oposição, inclusive com manifestações populares, até então adormecidas. Caso o episódio ainda se estenda, ele também deverá ser recorrente na campanha eleitoral deste ano”, afirma.

As suspeitas sobre o Banco Master começaram a ganhar dimensão pública no segundo semestre de 2025, quando órgãos de controle e o Banco Central identificaram inconsistências contábeis relevantes na carteira de ativos da instituição. As apurações apontaram indícios de operações lastreadas em créditos considerados inexistentes ou com valor inflado, negociados com outras instituições financeiras.

O Banco Master virou alvo de uma investigação de grande porte a partir de novembro de 2025, quando autoridades federais passaram a apurar um rombo estimado em até R$ 50 bilhões envolvendo a venda de créditos inexistentes ao Banco de Brasília (BRB) e o uso irregular do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A ofensiva resultou na deflagração da Operação Compliance Zero. O empresário Daniel Vorcaro chegou a ser preso, mas foi posteriormente solto mediante medidas cautelares e está em prisão domiciliar.

Com a menção a autoridades com foro, parte das investigações foi remetida ao STF. A partir desse momento, registros de reuniões, contratos e relações profissionais passaram a ser analisados também sob o prisma político.

Vorcaro teve encontro fora da agenda e relações com Lula

Revelações recentes divulgadas pela CNN Brasil apontaram que, em dezembro de 2024, o presidente Lula recebeu Daniel Vorcaro em uma reunião que não constava da agenda oficial do Palácio do Planalto, com a presença de ministros e interlocutores políticos. A participação de Vorcaro em um encontro reservado com integrantes do Executivo voltou ao centro do debate quando a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, confirmou que a reunião ocorreu e defendeu que “é inerente ao cargo” receber presidentes de bancos.

O encontro de 2024, que não constava na agenda oficial do presidente, teve ainda a participação de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento de governos petistas, do empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master, e de Gabriel Galípolo, que à época havia sido indicado por Lula para assumir a presidência do Banco Central.

Os temas discutidos no encontro não vieram a público. O banqueiro Vorcaro ainda esteve outras três vezes no Palácio do Planalto, mas os detalhes dessas visitas não foram divulgados.

Lula também participou da inauguração da fábrica da Biomm em Nova Lima (MG), empresa de biotecnologia da qual Vorcaro é acionista, em abril de 2024. A Biomm firmou com o governo contratos para o fornecimento de insulina ao SUS que somam R$303,65 milhões. A celebração da obra — e os contratos assinados — voltaram ao centro do debate político quando, em janeiro de 2026, o presidente passou a criticar publicamente Vorcaro, rotulando-o de “golpista”.

À Gazeta do Povo, na última quinta-feira (29), o Ministério da Saúde afirmou que a parceria para produção de insulina no Brasil envolvendo a Biomm começou em 2013, “mais de uma década e sete anos antes da participação do Fundo de Investimento Cartago na empresa”. A pasta ressaltou ainda que cumpriu estritamente as regras da Lei de Licitações, “vencendo a empresa que ofertou o menor preço”. “Os medicamentos foram entregues pela Biomm, primeira colocada no pregão, no prazo e qualidade estabelecidos pelo contrato”, completou.

Já a Biomm respondeu que “não permite interferência direta por parte de acionistas individuais”.

Uma reportagem publicada pela CNN Brasil informou que o presidente Lula também teria se reunido com Dias Toffoli, relator da investigação no STF, em dezembro do ano passado, em um encontro que não constou da agenda oficial do Planalto e contou com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A conversa reservada teria ocorrido em Brasília em meio às primeiras fases de sigilo decretado no inquérito. Auxiliares do presidente e aliados avaliam que um novo encontro entre Lula e Toffoli pode ocorrer em meio às críticas sobre a condução do caso.

Para o jurista Miguel Vidigal, a situação é delicada para o governo. Ele afirma que a simples possibilidade de um encontro entre o presidente da República e o relator do caso no STF para tratar do tema seria algo inédito e sensível do ponto de vista da separação entre os Poderes.

Vidigal também aponta que a investigação pode levantar questionamentos sobre falhas de regulação financeira e diz que o ritmo acelerado das diligências determinadas por Toffoli pode gerar questionamentos futuros sobre a validade processual.

“Celeridade pode evitar destruição de provas, mas também pode criar a percepção de condução excessiva, o que afeta a credibilidade”, afirma. Ele lembra que decisões do STF de concentrar investigações na Corte têm precedentes recentes, mas ressalta que a medida é excepcional e sempre gera debate sobre o princípio do juiz natural e o duplo grau de jurisdição.

Guido Mantega e Jaques Wagner: consultoria e encontros políticos

Outro nome que passou a circular no contexto das apurações é o do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Ele foi mencionado em relatos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, no âmbito das investigações que analisam a rede de relações políticas e institucionais mantidas pelo banco.

Segundo denúncia publicada pelo site Metrópoles, Mantega teria atuado como consultor da instituição com remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão, em articulação que teria contado com a indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT).

De acordo com a publicação, o ex-ministro teria participado de tratativas relacionadas à tentativa de venda do banco ao Banco de Brasília (BRB) e permanecido na função até semanas antes de o Banco Central decretar a liquidação da instituição, em novembro. Os pagamentos, ainda segundo a denúncia, teriam somado ao menos R$ 11 milhões.

A informação ganhou peso político por envolver um ex-integrante de destaque dos governos do PT e por contrastar com declarações recentes do presidente Lula, que classificou como “golpe” a atuação do Daniel Vorcaro. O episódio também é relacionado ao período posterior à desistência do governo em indicar Mantega para o conselho de administração da Vale, movimento que havia gerado reação no mercado à época.

Ao Metrópoles, Mantega negou irregularidades e afirmou que sua atuação foi técnica e dentro da legalidade. A defesa dele alegou que todas as consultorias foram técnicas e regulares, e que não há provas até agora de que sua participação esteja ligada a favorecimentos ilegais.

No mesmo contexto, o nome de Jaques Wagner também passou a ser associado às articulações em torno do banco. Segundo relato do próprio senador, um executivo ligado à instituição, Augusto Lima, o teria procurado em busca de uma indicação profissional, ocasião em que Wagner afirmou ter sugerido o nome do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que à época deixava a Corte. Wagner declarou estar “tranquilo” em relação à sua ligação com Lima.

O senador também confirmou conhecer Daniel Vorcaro, mas minimizou a relação, afirmando que o contato não teria maiores implicações. Em declarações recentes, Wagner defendeu que uma eventual delação de Vorcaro — ainda não confirmada — poderia contribuir para esclarecer os fatos e possíveis conexões políticas relacionadas ao caso. Até o momento, ele sustenta que não teve participação em decisões financeiras ou operacionais ligadas à instituição.

Ricardo Lewandowski: consultoria e possível conflito de interesse

Outro fator que ampliou a sensibilidade política do caso surgiu a partir de revelações de ligações entre Vorcaro e advogados ligados ao ex-membro do STF e ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Uma dessas denúncias foi feita pela Gazeta do Povo envolvendo o advogado Enrique de Abreu Lewandowski, filho do ex-ministro.

Segundo a reportagem, Enrique atuou no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em dezembro de 2025, em favor de uma empresa investigada por fraudes em empréstimos consignados a servidores públicos de Mato Grosso e apontada como fornecedora de créditos que foram revendidos e posteriormente integraram carteiras do Banco Master.

À época, Ricardo Lewandowski ainda ocupava o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, função da qual se desligou em 8 de janeiro deste ano.

Procurado pela Gazeta do Povo, Ricardo Lewandowski afirmou não ter “qualquer conhecimento sobre eventual recurso no STJ” e declarou que se afastou do exercício da advocacia e suspendeu seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conforme determina a legislação. A assessoria de Enrique Lewandowski também foi procurada, mas não houve retorno até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

A coincidência temporal não configura ilegalidade, mas ganhou relevância diante das apurações sobre o Banco Master. Uma reportagem do Metrópoles mostrou que o grupo de Daniel Vorcaro teria pago cerca de R$ 5 milhões ao escritório ligado à família do ex-ministro entre 2023 e 2025 - período que abrangeu o período em que Lewandowski foi ministro de Lula..

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse na quarta-feira (28) que o governo estava ciente da consultoria prestada por Lewandowski, argumentando que não havia ilegalidade em sua existência. Segundo ela, o ministro teria informado ao presidente sobre seus contratos privados ao ser convidado e seguido a legislação ao se afastar.

Críticos do governo levantaram a possibilidade de Lewandowski ter deixado o Ministério da Justiça para evitar que Lula fosse afetado pelo escândalo do Master, mas a possibilidade foi negada por governistas.

Juristas veem risco de desgaste institucional

As investigações sobre o Master seguem em curso, com compartilhamento de dados entre PF, Ministério Público e instâncias judiciais. A expectativa, nos bastidores, é que novas fases da apuração tragam ainda mais elementos que clarifiquem ou aprofundem o grau de envolvimento das figuras citadas em episódios anteriores e em desdobramentos mais recentes do Caso Master.

Fabrício Rebelo questiona o ritmo das diligências determinado no inquérito. Ele avalia que a combinação entre prazos curtos impostos à Polícia Federal e a ausência, até o momento, de conclusão de perícias técnicas pode afetar a percepção pública sobre a investigação.

“Sem nenhuma dúvida. É um procedimento que vem subvertendo toda a lógica da investigação penal, notadamente a partir da lacração das provas, algo que não faz absolutamente nenhum sentido jurídico. Quando a isso se soma uma série de determinações heterodoxas, o questionamento quanto à isenção e aos objetivos da investigação se torna mais do que natural, mas verdadeiramente estimulado”, diz.

As críticas se somam a outras avaliações que apontam para o risco de desgaste institucional caso o processo seja visto como excessivamente acelerado ou conduzido fora dos padrões tradicionais da investigação criminal.

Já Juan Arruda destaca que a ausência, até o momento, de laudos periciais conclusivos e a imposição de prazos curtos à Polícia Federal podem afetar a percepção pública sobre a solidez da apuração. “Em um Estado de Direito, não basta investigar rápido; é preciso investigar bem”, diz. Segundo ele, quando a exceção começa a se repetir, cresce a preocupação com a previsibilidade do sistema de Justiça e com a confiança nas instituições.

A reportagem procurou a Presidência da República para se manifestar sobre as reuniões mencionadas e sobre a relação de integrantes do governo com personagens ligados ao Banco Master, mas não houve resposta até a conclusão desta reportagem. O espaço segue aberto para atualização.


GOVERNO LULA QUEBROU OS CORREIOS

Correios retomam plano de demissões voluntárias

Funcionários da unidade de distribuição dos Correios em Brasília - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.

Ação integra plano de reestruturação da empresa estatal


A partir dessa semana, os Correios irão reabrir as inscrições para o Plano de Desligamento Voluntário (PDV) dos empregados da estatal. A participação no programa é pessoal e voluntária e ficará aberta até 31 de março. Os desligamentos serão concluídos até o fim de maio.

O PDV 2026 integra a Fase 1 do Plano de Reestruturação econômico-financeiro para o período de 2025–2027. Segunda a estatal, o objetivo é reduzir os custos da empresa para garantir a sustentabilidade dos Correios e sua relevância social. O Plano de Desligamento Voluntário de 2025 teve a adesão de cerca de 3,5 mil empregados da estatal.

Em comunicado de dezembro, os Correios declaram que a expectativa é que o PDV tenha o potencial de adesão de até 15 mil empregados entre 2026 e 2027. A economia anual estimada nas despesas de pessoal com as demissões é de R$ 2,1 bilhões, com impacto pleno a partir de 2028.

Novidades

O PDV 2026 põe fim às restrições de idade máxima (antes destinado a quem tinha 55 anos e mais). Agora, qualquer empregado pode aderir ao plano, desde que tenha pelo menos dez anos de casa. Outra condição é que o empregado tenha recebido remuneração por, no mínimo, 36 meses, nos últimos 60 meses. O interessado não pode ter completado 75 anos até a data do desligamento.

Pelas regras do PDV, os empregados e seus dependentes poderão optar pelo Plano de Saúde Família, com mensalidades mais acessíveis e cobertura regional.

Victor Gomes

DITADORA PRESIDENTA

Governo Lula chama vice-ditadora da Venezuela de ‘presidenta’

Delcy Rodrigues (Foto: Reprodução/TeleSUR)

Tratamento se dá em documentos como "telegramas" da embaixada


O que resta de diplomacia brasileira em Caracas se refere a Delcy Rodriguez, vice-ditadora ou ditadora interina da Venezuela, como “vice-presidenta” ou “presidenta”, em documentos oficiais tipo telegramas ao Itamaraty. Tanto quanto Nicolás Maduro, tirano hoje recolhido ao xilindró, Rodriguez está no poder após se beneficiar de uma das maiores fraudes eleitorais da História. Nem mesmo Lula (PT) teve coragem de reconhecer a “vitória” do amigo ditador, após a falcatrua que escandalizou o mundo. A informação é da Coluna Claudio Humberto, do Diário do Poder.

O tratamento de “presidenta” é um antigo cacoete imposto por Dilma Rousseff (PT), enquanto presidiu o Brasil até sofrer impeachment.

A bajulação a Delcy Rodriguez tem “explicação”: sem acesso a Maduro, era ela, sem muito a fazer, quem dava atenção a diplomatas brasileiros.

As frequentes citações da “Brasemb Caracas” (codinome da embaixada nos telegramas) à vice-tirana, em 2025, hoje sugerem uma aposta.

É O POVO ACORDANDO PRA REALIDADE

PT corre risco de encolher no Senado, com 6 dos 9 senadores em fim de mandato

Plenário do Senado. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado).


Sob risco de encolhimento no Senado, o PT corre contra o tempo para tentar ao menos manter a estabilidade da bancada, hoje com nove parlamentares. Seis senadores do partido precisam renovar o mandato, um, Paulo Paim (RS), disse em dezembro que vai se aposentar e, portanto, estaria fora das eleições deste ano. Eleito pela Rede, Fabiano Contarato (ES) migrou para o PT e, com guinada conservadora dos eleitores capixabas, também não terá reeleição tranquila, se é que virá.

Escambo

O PT passou até a instigar candidaturas ao governo, com promessas de apoio, para que o suplente, se petista, assuma a cadeira no Senado.

Vale tudo

É o caso de Omar Aziz (PSD-AM). Se o senador levar o governo amazonense, quem assume o parlamento é a petista Cheila Moreira.

Surra homérica

O PT se preocupa com a situação de Rogério Carvalho (SE). Pesquisas como do Real Time Big Data colocam o petista em 5º, e empatado.

Comeu mosca

Petistas com alguma consciência concordam que o partido demorou para desenhar as chapas, enquanto a oposição se organiza desde 2023.

Cláudio Humberto

ASSASSINADA NO BLOCO DE CARNAVAL

Jovem é morta a facadas durante bloco carnavalesco na Mustardinha, no Recife

Luiza foi morta a facadas em bloco de carnaval no Recife (Foto: Reprodução/Instagram)

Uma mulher de 21 anos foi presa suspeita pelo crime. Um homem de 27 anos ficou ferido na ocasião


Uma jovem de 18 anos foi assassinada a facadas na noite do sábado (31), no bairro da Mustardinha, Zona Oeste do Recife. A vítima, identificada apenas como Luiza e conhecida nas redes sociais como “Malu Constantine”, foi atacada durante o Bloco do Papada, que acontecia na localidade.

De acordo com informações preliminares, Luiza foi atingida por golpes de arma branca. Ela chegou a ser socorrida e encaminhada para uma unidade de saúde, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos e morreu após dar entrada no hospital.

Durante o ataque, o namorado da vítima também ficou ferido. Ele tem 27 anos e não teve a identidade divulgada. O homem precisou de atendimento médico e seu estado de saúde não foi detalhado.

A autora do crime, uma mulher de 21 anos que não teve nome divulgado, foi presa em flagrante. Segundo a polícia, ela permanece custodiada no hospital, sob escolta policial.

Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que registrou, neste domingo (1º), por meio do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) - Força Tarefa de Homicídios na Capital, um homicídio consumado e uma tentativa de homicídio no bairro da Mustardinha, no Recife.

A suspeita, de 21 anos, foi presa em flagrante e segue custodiada no hospital. As investigações continuam para esclarecer as circunstâncias e a motivação do crime.

DP

CARNAVAL 2026

"Cinquenta carnavais nas virgens", celebra vencedor do desfile das Virgens de Bairro Novo, em Olinda

Antônio completa 50 desfiles nas Virgens de Bairro Novo neste ano (Wanderson Oliveira/DP Foto)

Virgens de Bairro Novo, em Olinda, premiaram melhores fantasias em oito categorias


Ao som dos clarins da orquestra, Antônio Martins Correia, de 69 anos, recebeu o prêmio de melhor fantasia das Virgens de Bairro Novo, em Olinda, na categoria "Luxo", que ganha as ruas neste sábado (1). Intitulada "50 anos de Glória", a indumentária premiada faz referência ao período em que ele tem participado ininterruptamente do desfile. 

"O que a gente gasta não importa. O que importa é ser aplaudido", diz Antônio, enquanto o sol de quase meio dia já derrete boa parte de sua maquiagem.

Com a nova vitória, ele soma 46 títulos de melhor fantasia nas Virgens. "Essa daqui pesa 30 kg, mas com o suor, acho que vai para uns 60kg", acrescenta. 

Premiação

Conforme mandam os 73 anos de tradição, as Virgens de Bairro Novo premiaram as melhores fantasias em oito categorias. Dentre as mais celebradas pelo público, a performance do "Titanic Malamanhado" conquistou os jurados na categoria "Grupo", com componentes vestidos de músicos, dos personagens Jack e Rose e até de icebergs. 

A ideia foi dada pelo instrutor de trânsito Erick Torres, que performou um dos músicos do famoso naufrágio. "Já é meu 21º desfile. Todos os nossos familiares estão presentes nos dando apoio. Às vezes,a gente pensa em desistir, mas o carnaval de Pernambuco é contagiante", afirma Erick. 

DP

TRAGÉDIA DE CARUARU

Os 30 anos da Tragédia da Hemodiálise em Pernambuco

IDR de Caruaru (Léo Caldas/Arquivo DP)

A morte de 60 pacientes renais do IDR de Caruaru ganhou o noticiário internacional e mudou de vez os cuidados necessários no país para evitar novas contaminações


A conhecida ‘Tragédia da Hemodiálise’, caso de intoxicação que matou mais de 60 pacientes renais em Caruaru, no Agreste do estado, completa 30 anos neste mês. Foi em 20 de fevereiro de 1996 que o Diario de Pernambuco noticiou a primeira morte do caso que, devido à gravidade, chamou a atenção até da presidente da Associação Britânica dos Pacientes Renais, Elizabeth Ward. Até hoje, familiares de vítimas e sobreviventes lutam por indenização.

Nesta reportagem, o Diario relembra a história da ‘Tragédia da Hemodiálise’, que mudou a vida de muitas famílias de Caruaru e localidades próximas, e também os parâmetros de segurança em processos de hemodiálise em todo o Brasil. Após o primeiro óbito, a frequência de mortes instalou um alerta e uma grande dúvida do que estava acontecendo com as vítimas, todas pacientes do Instituto de Doenças Renais (IDR) de Caruaru. A situação, no entanto, não foi descoberta imediatamente, muito em função do ineditismo do caso.

Cerca de 140 pacientes foram contaminados, quando realizavam o procedimento de hemodiálise, por uma toxina denominada microcistina-LR, produzida por cianobactérias (algas verde-azuladas) contidas na água usada nos procedimentos. Foi o primeiro registro no mundo de contaminação nessas circunstâncias.

“Esse foi o primeiro caso desse tipo de contaminação, apesar da alga que causou isso ser uma alga encontrada em diversos lugares do mundo. Existiam alguns relatos de intoxicação por pessoas que bebiam da água, que tinham contato, tomavam banho, qualquer coisa desse tipo, e desenvolviam uma doença hepática. Mas isso nunca tinha sido descrito numa unidade de hemodiálise”, explicou ao Diario o nefrologista Amaro Medeiros, que tratou vários pacientes vítimas da intoxicação na época.

Profissionais de todo o planeta estiveram em Caruaru para colaborar com as análises do caso. Cerca de um mês após a primeira morte, surgiram as primeiras conclusões sobre a contaminação da água usada na hemodiálise. “Era época de seca. A gente recebeu a notícia de que uma das clínicas do Caruaru recebia água do reservatório Tabocas. Essa alga é azul esverdeada, e na época da seca, se concentra na água. Não tinha água para quase ninguém, eles usaram essa água”, relembra Dr. Amaro.

A contaminação por microcistina causa danos hepáticos, que em nada se relacionam à insuficiência renal. “A contaminação, na realidade, não tinha nada a ver com o rim. O grande efeito dela era no sistema neurológico, dores musculares e no fígado”, afirma o médico. A hemodiálise é um processo de tratamento para pacientes com quadro de insuficiência renal, que pode ser causado por vários motivos.

“A diálise funciona como um rim, retirando substâncias que o rim não está conseguindo tirar do organismo. O paciente permanece bem, mas tem que repetir isso no mínimo três vezes por semana, quatro horas por dia. É como uma filtragem do sangue”, esclarece Dr. Amaro. Para esses pacientes, a diálise é importante para manter a saúde enquanto a chance de transplante de rim não aparece.

“Eu posso manter meu doente na diálise, produzindo socialmente, tendo uma vida interativa com a sociedade, com a família, enquanto ele espera a chegada de um rim para transplantar. Isso significa dizer que a diálise salva a vida”, explica o nefrologista.

Após a Tragédia da Hemodiálise, foram determinadas mudanças no padrão de segurança de prática do procedimento. “Com o exemplo de Caruaru, a grande mudança dentro da diálise aconteceu quando o Ministério da Saúde publicou uma portaria que obriga todas as unidades de diálise do Brasil a utilizar um tratamento chamado Osmose Reversa. Modificou completamente o desempenho da diálise. Outras modificações aconteceram, nas membranas que se utilizam para filtragem e tudo mais, mas o grande evento foi a mudança na forma de tratar a água”, aponta.

Segundo o nefrologista, à época, já existia preocupação com o tratamento de água, porém mais simples. “Existia uma preocupação com água naquela época. As clínicas eram obrigadas a ter um tratamento de água. Só que era bem mais simples, uma questão de não ter disponível todas as formas de tratamento, e a um custo que fosse possível. No Brasil todo, era usado um deionizador: uma coluna que tirava parte de substância, outras tiravam os cátions e os íons, e uma coluna de carvão que filtrava”, detalha.

A luta de um sobrevivente

Quitério Silva, de 51 anos, foi um dos pacientes que sobreviveu à intoxicação, mas até hoje lida com uma Hepatite C, sequela da contaminação. Natural de Tacaimbó, no Agreste, ele fazia hemodiálise desde os 16 anos, três vezes por semana no IDR. Aos 21 anos, foi intoxicado. Ele conta ao Diario como tudo aconteceu. “Antes da tragédia era normal. Em fevereiro de 96 começou a morrer gente e ninguém sabia o que era. No meio de março vieram descobrir que era o problema da água. Tiveram que desenterrar um bocado de paciente para saber o que tinha acontecido”.

Ele relembra como foi continuar com o procedimento em meio às mortes e dúvidas. “A gente ficava ansioso, apreensivo, porque estávamos no mesmo processo das pessoas que estavam morrendo. A gente tinha que ir. Ia ou morria. Ou você ia (para a hemodiálise) para morrer, ou se ficasse em casa, ia morrer, porque não podia ficar sem tratamento. Eu pegava carona com uma menina de Pesqueira, e me lembro quando ela entrou na máquina (de hemodiálise) do meu lado. Assim que ela entrou, teve uma parada e morreu. Eu fiquei muito nervoso nesse dia”.

Quitério, como mais de 100 outros pacientes, foi contaminado, e como poucos, sobreviveu. Ele ficou internado por mais de dois meses no Hospital Barão de Lucena, na Iputinga, Zona Oeste do Recife. Durante o período, perdeu um amigo próximo que também era tratado no IDR, uma das perdas mais dolorosas, ele relata. “Toda vez que lembramos de hemodiálise, ou fala-se em tragédia, dá muita angústia no coração da gente, porque perdemos muitos amigos. Não gosto de lembrar. Dá um nervosismo, vontade de chorar. Eu nunca me esqueci do meu amigo Cirilo, foi um dos pacientes que me ajudou muito, me dava muita força. Na época eu era de menor, passei minha juventude toda fazendo hemodiálise e ele era o único que me aconselhava, para eu não me desesperar, dizia que um dia eu ia sair daquele sofrimento. Infelizmente ele não resistiu, faleceu lá no Recife”, menciona.

Atualmente, Quitério não realiza mais hemodiálise, pois conseguiu um transplante de rim em 2013. Após todos esses anos, a única coisa que falta a respeito da tragédia é a indenização, obtida na Justiça, que nunca foi devidamente recebida. Ele diz que os sobreviventes e muitas famílias estão “esquecidos”. “É uma luta. Ainda espero que seja cumprido o que a Justiça pede. Sei que a Justiça daqui da terra é muito falha, mas a de Deus não. Espero que eu que um dia seja resolvido. Não vai trazer a nossa saúde de volta e nem vai trazer a vida dos pacientes que infelizmente faleceram, mas para eles aprenderem a trabalhar direito na área da saúde. Temos que lutar para não sermos esquecidos, como estamos sendo”, expressa.

Jéssica Borges tinha cinco anos quando perdeu o pai, José Francisco Borges, que faleceu aos 30, em decorrência da intoxicação. Ele ficou mais de um ano internado no Hospital Barão de Lucena, onde os pacientes contaminados eram tratados. Segundo ela, José Francisco viajava de Bezerros, onde ainda mora a família, para o IDR, em Caruaru, três vezes por semana. Apesar da pouca idade, ela diz se lembrar do pai, e de quando ele adoeceu.

“Foi uma situação tão traumática, mas eu lembro bastante. Tudo piorou com a contaminação. Ele ia e voltava só, era tranquilo. Nesse dia minha mãe estranhou porque ele chegou acompanhado do cobrador de ônibus, já com dificuldade de enxergar. Começou com uma dor de cabeça, depois teve uma crise de riso, suando muito, algo incontrolável. Depois a dor de cabeça retornou, só que de uma forma mais forte”, compartilha.

O pai de Jéssica foi socorrido para o IDR, e encaminhado para o Barão de Lucena, no Recife. A jovem conta que foi um momento delicado, pois a mãe dela veio para a capital acompanhar José Francisco, e ela e a irmã, ainda crianças, ficaram longe dos pais. “Foi uma situação muito complicada. Minha mãe assumiu a causa, e eu e minha irmã nós ficamos pela casa de parentes, vendo minha mãe raramente”.

A família não conseguiu sequer enterrar José Francisco. Ele faleceu enquanto a mãe de Jéssica estava em Bezerros, visitando as filhas. Elas só souberam da morte um tempo depois. “Eu não consegui ver o meu pai morto para dar a ele um funeral decente. Quando ele faleceu, estava com tuberculose e hepatite tóxica. Minha mãe tinha vindo para me ver com minha irmã e ele ficou com uma prima. Naquela época não tinha telefone com tanta disponibilidade e a gente só ficou sabendo em outro dia, por uma ligação de orelhão, que ele tinha falecido e tinha sido sepultado. Então, não teve velório, a gente não conseguiu ver. Foi terrível”, relembra, emocionada.

Justiça

Ainda em 1996, os sócios do IDR, os médicos nefrologistas Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho, foram condenados a indenizar as vítimas e famílias. Eles foram absolvidos na vara criminal em 2002. Apesar da condenação, poucas famílias e sobreviventes conseguiram ser indenizados. Alguns familiares e vítimas ainda lutam para conseguir a indenização. O impasse na justiça é em conseguir bens dos sócios para realizar a penhora. É o caso de Quitério e Jéssica.

As lembranças nunca foram embora. Hoje, aos 34 anos, Jéssica conta que esse é o principal motor da luta por justiça pelo que aconteceu com o pai. “Eu lembro de tudo dele. Acho que é isso que alimenta essa minha vontade tão grande de justiça, porque eu lembro da voz dele, do pedido que ele fez para minha mãe, da minha última visita a ele”.

O processo foi arquivado, mas ela não desistiu. Há alguns anos, entrou novamente na justiça, mas o andamento é lento, ela explica. O sentimento de, mesmo após tanto tempo, continuar lutando, é de “impunidade”, segundo Jéssica.

“Meu pai infelizmente se foi por conta de irresponsabilidade, eu gostaria muito que a justiça se compadecesse para que não ficasse no esquecimento. Porque quando a gente vai atrás da indenização, não é para trazer nenhuma vida de volta, mas uma forma de fazer a justiça. Eles foram condenados e nada foi feito, é como se nada tivesse acontecido. A vida para eles continuou da mesma forma, já a nossa, não. Eu falo pela minha mãe, pela minha irmã, foram anos de sofrimento e até hoje é assim. Crescer sem um pai dilacerou minha vida, faz muita falta mesmo. A gente queria que a justiça fosse feita para poder colocar um ponto final nessa história e seguir. Só houve consequência para as vítimas e para as famílias, não para os culpados”, desabafa.

Nicolle Gomes