Drenagem, habitação, mobilidade: especialistas apontam principais desafios urbanísticos do novo prefeito do Recife
Especialistas apontam drenagem como um dos principais desafios de urbanização do Recife (Sandy James/DP Foto)
Procuramos especialistas em urbanismo para entender os principais desafios que o novo prefeito do Recife, Victor Marques, encontrará nos próximos dois anos
Drenagem, habitação e mobilidade estão entre principais desafios que o novo prefeito do Recife, Victor Marques, encontrou ao assumir a administração municipal, segundo especialistas ouvidos pelo Diario de Pernambuco. Com dois anos de mandato pela frente, o gestor terá que lidar com um complexo cenário, que combina problemas históricos de infraestrutura e mudanças climáticas.
Para Ronald Vasconcelos, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), assim como a maioria das cidades brasileiras, o Recife teve seu processo de reforma urbana estagnado em meados dos anos 1980. Nesse sentido, o urbanista destaca que a drenagem urbana deve ser encarada como prioridade.
“Resolvendo o problema da drenagem, resolvemos 70% dos problemas da cidade. A prefeitura vem atacando o problema através do programa ProMorar e precisa dar continuidade às obras em córregos e canais. Esse é um grande desafio diante das mudanças climáticas. Em abril, por exemplo, estamos presenciando chuvas acima da média para o mês”, afirma Vasconcelos.
O engenheiro pontua ainda que a questão habitacional também tem sido uma preocupação urbanística relevante, já que há poucos lotes disponíveis para construção e muitas casas localizadas à beira de rios, canais e em áreas de encostas. De acordo com a prefeitura, o déficit habitacional no Recife caiu de 71 mil para 54 mil entre os anos de 2017 e 2022.
A gestão municipal diz que, desde o primeiro mandato do prefeito João Campos, entregou 6 mil unidades habitacionais, em sete conjuntos. Além disso, a PPP Morar no Centro promete oferecer 1.128 unidades habitacionais, das quais 56% serão direcionadas para locação social na área central da cidade.
“Com a aprovação da nova Lei de Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) chegamos ao número de 73 Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). São áreas com casas bem construídas e terrenos ocupados, mas quando você abre a porta para a rua, não há pavimento, drenagem, água, iluminação pública e esgoto adequados. Apenas dez dessas zonas foram urbanizadas”, coloca.
Desde 1987, o Recife conta com o Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social (Prezeis), um instrumento de política urbana voltado para buscar regularização fundiária e proteger os moradores dessas áreas contra a especulação imobiliária. “A política já existe, mas ainda anda devagar”, completa Vasconcelos.
Escuta e credibilidade
Para Lívia Nóbrega, professora de Arquitetura e Urbanismo da UFPE e vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil em Pernambuco (IAB-PE), Victor Marques deverá recuperar a credibilidade com a cena urbanística da cidade, que, segundo ela, não tem se sentido ouvida nos processos decisórios da gestão municipal. “O fato de ele ser um desconhecido pode agravar a sensação de muita gente no nosso campo de que não há escuta. Os projetos aparecem, a gente sabe que eles cumprem todas as etapas, mas é tudo tão rápido que não dá tempo de assimilar e fazer contribuições”, pontua.
A professora menciona como exemplos os processos de debate das concessões do Distrito Guararapes, que contou com apenas uma audiência pública realizada em formato online, no dia 29 de outubro do ano passado. Durante a gestão João Campos, também foi concedida a administração de quatro parques públicos à iniciativa privada.
“Ele [Victor Marques] tem o desafio de conquistar a confiança de alguns setores, que estão abalados. Além disso, o prefeito vai precisar lidar com os efeitos práticos das concessões nos próximos anos. No Parque da Jaqueira, por exemplo, já existe uma mudança de público, com aumento do ticket médio de consumo”, diz Nóbrega.
Estrutura versus tempo
Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), Roberto Salomão, destaca que as mortes causadas por um desabamento durante as chuvas na comunidade do Pilar, no Bairro do Recife, não devem ser tratadas como um evento isolado, mas consequências da situação estrutural da cidade. Ele reconhece que a prefeitura tem realizado intervenções de drenagem, limpeza de canais e monitoramento de áreas de risco, mas acredita que “a intensidade dos desafios ainda é maior do que a capacidade de resposta acumulada ao longo do tempo”.
Assim, Salomão defende que a gestão precisa operar em dois níveis simultâneos. “De um lado, consolidar e ampliar as ações estruturais já iniciadas [...] A exemplo da drenagem, contenção de encostas, urbanização de áreas precárias, reassentamento digno e adaptação climática”, afirma.
Ao mesmo tempo, complementa o urbanista, a gestão municipal deve manter e qualificar a zeladoria, em aspectos como limpeza de canais, manutenção de drenagem, monitoramento de risco e resposta rápida. “Governar o Recife hoje é lidar com três tempos simultaneamente: o tempo da urgência, o tempo das obras estruturantes e o tempo curto da política. E a qualidade dessa gestão será medida justamente pela capacidade de alinhar esses três tempos”, conclui Salomão.
O que diz a prefeitura
“O Recife tem desafios estruturais importantes, sobretudo por ser uma das cidades mais vulneráveis às mudanças climáticas. Por isso, a nossa prioridade é fortalecer a resiliência urbana, a proteção de vidas e o bem estar da população, com investimentos em drenagem, contenção de encostas, urbanização e habitação. Só na Ação Inverno 2026, estamos investindo R$ 381,8 milhões, o maior investimento da história da cidade nessa área.
Com o Promorar, maior programa de requalificação urbana e resiliência climática na história da capital pernambucana, estamos integrando drenagem, contenção de encostas, urbanização e habitação, olhando para os territórios de forma completa e não isolada. E um dos focos mais importantes desse trabalho é a bacia do Tejipió, uma das regiões que historicamente mais sofrem com alagamentos na cidade.
Estamos executando um conjunto de intervenções estruturadoras nessa bacia, com implantação de reservatórios, requalificação de canais, melhoria da microdrenagem e aumento da capacidade de escoamento das águas. São obras pensadas para reduzir, de forma consistente, os impactos das chuvas em áreas como Imbiribeira, Ipsep, Ibura e entorno da Avenida Recife.
Ao mesmo tempo, seguimos avançando com uma política permanente de proteção de áreas de morro. Desde 2021, já concluímos mais de 150 obras de contenção de encostas, com investimentos superiores a R$ 270 milhões, protegendo cerca de 18 mil pessoas. E seguimos com dezenas de obras em andamento, ampliando essa cobertura em áreas de risco em toda a cidade.
Na habitação, já são mais de 6 mil unidades viabilizadas entre entregues, em execução e em contratação. Estamos com novos conjuntos em andamento e outros sendo iniciados, além de projetos estruturadores que ampliam o acesso à moradia digna e ajudam a transformar áreas vulneráveis da cidade.
Nosso compromisso é seguir enfrentando problemas históricos da cidade com investimento, presença e capacidade de execução, preparando o Recife para conviver melhor com os eventos climáticos, avançar com mais qualidade de vida para as pessoas e preparar a cidade para o presente e para o futuro".
Marília Parente