A celebração à vida de Lucas Lyra
No dia do aniversário do torcedor, família comemora sua recuperação após momentos de tristeza
Hoje seria dia de bolo e refrigerante na casa de número 1 da Travessa Francisco Lacerda, no bairro da Várzea. Este ano, o aniversariante, que completa 20 anos, está ausente. Há dois meses, Lucas de Freitas Lyra se recupera de um tiro na nuca, na Unidade de Suporte Avançado Neurológico (Usan) do Hospital da Restauração. Às 15h30, a família vai se reuniu em frente ao HR e promoveu mais um encontro de oração. Outra forma de celebrar o (re)nascimento de Lucas.
“Nunca deixei de fazer um bolinho, chamar os amigos e cantar parabéns para ele. De forma simples, sempre comemoramos. Ele adora bolo de chocolate. Agora, quero mais é celebrar a vida dele. Ter Lucas de volta em casa seria nosso maior presente”, comenta Cristina Lyra, mãe do rapaz, que levou um tiro no dia 16 de fevereiro, antes de assistir a uma partida do Náutico, seu clube de coração. Uma paixão clubística que começou com o patriarca da família, seu Joel Lira, morto em 28 de abril de 1996. “Quando o pai dele morreu, foi dia de clássico entre o Náutico e o Santa Cruz. Fizeram um minuto de silêncio. Frequentávamos os estádios nos tempos em que balançar bandeirões era motivo de festa e orgulho para a torcida”, relata.
Há exatos dois meses, ela segue a mesma rotina. Por volta das 14h, já está toda arrumada – sem esquecer da maquiagem – e segue para o Hospital da Restauração, sempre na companhia de um dos outros dois filhos, Mirella, de 27 anos, e Joel, de 17. Cristina se mostra uma pessoa temente a Deus. Diz que o momento mais importante nesta caminhada foi justamente quando ouviu que seu filho tinha apenas 1% de chance de sobreviver. “Estas foram as palavras de um médico do HR, no segundo dia de Lucas na Usan. Creio que os outros 99% estão com Deus. E agora ele vem surpreendendo a todos. Se a febre cessar, ainda esta semana, ele poderá ter alta da UTI e ir para a enfermaria”, vibra a dona de casa, que acompanha com entusiasmo o progresso na saúde do filho do meio.
O boletim médico, divulgado ontem à tarde, informou que o estado do paciente é estável. Ele se recupera bem, sem o uso de aparelho e está consciente. Segue fazendo reabilitação dos movimentos, comprometidos por causa da grave lesão neurológica. De acordo com a mãe, os médicos aguardam Lucas se fortalecer um pouco mais, pois só assim conseguirão realizar nova cirurgia para recompor parte do crânio. “Uma placa de titânio vai ser colocada em substituição aos ossos. O lado direito da cabeça está afundada e ainda inchada. Ele perdeu mais de 20kg. Mas é tão bonito testemunhar a evolução dele”, acrescenta.
Mirella e Joel vêm compartilhando os momentos de sucesso na recuperação de Lucas. Quando descem do 6º andar do HR, trazem novidades. “No Domingo de Páscoa, ele mexeu o pé esquerdo. Só faltei morrer. Saí gritando para avisar aos médicos. Ele ainda me mandou um monte de beijos. Fico dizendo para ele que vou matá-lo de tanto cheiro. É lindo ver a carinha dele”, revela Mirella.
Saiba mais
A tragédia e as consequências
16/2
A tragédia
Lucas Lyra estava em frente aos Aflitos, onde o time enfrentaria o Central. O jogo estava marcado para as 19h. Pouco antes, um ônibus com torcedores do Sport passou na Avenida Rosa e Silva. Houve confusão. Um segurança que fazia a escolta do veículo interveio e disparou um tiro, que atingiu Lucas na nuca. Ele foi socorrido para o Hospital Agamenon Magalhães e, em seguida, levado para o Hospital da Restauração.
17/2
A reação
O governador Eduardo Campos determina que a investigação do crime seja tratada como prioridade. A Polícia Civil requisita as imagens das câmeras de segurança da Secretaria de Defesa Social (SDS) e diz ter identificado o suspeito de efetuar o disparo.
18/2
Paliativos
Reunião entre Federação Pernambucana (FPF), SDS e Ministério Público resultou na limitação de um jogo por dia no Recife, reduzindo o risco de encontro das facções organizadas. Foi estabelecido o prazo de 60 dias para realização do cadastramento dos torcedores, que ficaria sob responsabilidade da Secretaria de Esportes.
19/2
A prisão
Três dias depois, a cúpula da SDS prende o autor do disparo que atingiu Lucas Lyra. José Carlos Feitosa Barreto, de 37 anos, trabalhava para a empresa Pedrosa. Ele confessou, mas alegou que o tiro foi acidental. Em sua versão, ao intervir na confusão entre as organizadas, ele teria pego um primo de Lucas. Enquanto o agredia com o cabo do revólver, a arma disparou e atingiu Lucas, que tinha partido em defesa do seu primo.
20/2
A proibição
O Juizado Especial do Torcedor (Jetep) determina a proibição dos símbolos das três principais facções organizadas nos estádios: Fanáutico, Inferno Coral e Torcida Jovem. A medida proíbe a utilização de camisas, bandeiras, e a reunião dos membros em setores dos estádios.
Diario de Pernambuco
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