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domingo, 8 de julho de 2018

ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Assessores de Crivella: entre a religião e a política

Quarteto de quebra-galhos foi designado para resolver problemas de pastores


O encontro entre o prefeito Marcelo Crivella e pastores de igrejas evangélicas do Rio no Palácio da Cidade, na última quarta-feira, terminou com uma recomendação expressa do prefeito: quem tivesse algum problema a ser resolvido pela prefeitura deveria procurar sua equipe de assessores. Após o aviso, uma aglomeração se formou em torno de quatro deles: “Márcia e Marquinhos” ficaram responsáveis pelos pedidos na área da Saúde, como cirurgias de cataratas, varizes e vasectomia; “Manassés” atenderia quem precisasse resolver questões de vício em drogas; e “Dr. Milton” cuidaria dos pastores afetados por pendências com o IPTU.
Já depois do "vazamento" do encontro, o marqueteiro digital, Daniel Braga pediu demissão. Marcello Crivella o tinha importado de São Paulo, depois dele cuidar com sucesso das redes sociais do prefeito João Doria.
. O nome completo dela, Márcia da Rosa Pereira Nunes, consta da lista de funcionários do gabinete de Crivella no Senado. Ele ocupou o cargo de senador até o fim de 2016, antes de assumir a prefeitura. No início de 2017, Márcia foi nomeada coordenadora técnica da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), em função de confiança. Também presente no evento, o pastor e pré-candidato a deputado federal pelo PRB, Rubens Teixeira, chegou a presidir a Comlurb por dois meses este ano.
— É muito importante os irmãos ficarem com o telefone da Márcia ou do Marquinhos porque às vezes ocorre um imprevisto. Se houver caso de emergência, liga para a Márcia e ela liga para mim — afirmou Crivella.
Pastor da Igreja Universal, Marquinhos é Marcos Paulo de Oliveira Luciano, assessor especial do gabinete do prefeito. Foi dele a ideia do encontro no Palácio da Cidade visando ajudar a campanha de Rubens Teixeira e encontrou a oposição de Margareth Cabral, também assessora especial da Prefeitura. Mas Crivella preferiu ouvir Marquinhos, que o acompanhou durante seu trabalho de missionário na África e também no desenvolvimento de um projeto social na fazenda Nova Canaã, em Irecê, na Bahia, ambos na década de 1990. Coordenador de várias campanhas eleitorais de Crivella, em 2012 tentou se eleger vereador, sem sucesso. Ex-assessor de Crivella no Senado, apresenta-se publicamente como “coordenador do projeto Cimento Social”.
Atualmente, o assessor Douglas Manassés Correa é coordenador do programa Novos Caminhos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, comandada pelo vereador licenciado e bispo da Igreja Universal, João Mendes de Jesus. O programa foi criado este ano com o objetivo de recuperar usuários de drogas que vivem nas ruas. Manassés também preside o Instituto Manassés, uma ONG ligada à Igreja Universal que trabalha com a recuperação de dependentes químicos. No ano passado, a entidade tentou se habilitar para receber recursos públicos e para atender usuários de drogas, mas a inscrição não foi aprovada pelo Conselho Municipal de Assistência Social.
Manassés também foi candidato a vereador pelo PRB em 2016, mas não se elegeu. A fiscalização do TRE descobriu, naquele ano, ligações da sua ONG com a campanha do prefeito Crivella. Na época, material de campanha do prefeito foi apreendido no instituto que leva o nome do assessor.
O GLOBO apurou que “Dr. Milton” é um advogado que trabalha como assessor do pastor Marcos Luciano no 15º andar do Centro Administrativo da Cidade Nova. Sua função é prestar consultoria jurídica tributária para entidades religiosas.
CIRURGIAS ESCASSAS
Sindicatos ligados à área da Saúde planejam uma manifestação para “conhecer a Márcia” em frente à sede da prefeitura na próxima quarta-feira.
O aposentado Carlos Alberto Mathias, de 81 anos, aguarda há quase um ano uma cirurgia de catarata. Sem enxergar praticamente mais nada, ele é obrigado a viver tateando objetos pela casa.
Tarefas simples, como fazer as próprias refeições ou escolher uma roupa, já não são mais possíveis para o idoso, que espera pelo momento em que voltará a enxergar.
— Preciso dessa cirurgia para voltar a ter alegria de viver. Já pensei até em acabar com a minha vida.
Ele se cadastrou para a cirurgia em agosto do ano passado, mas até agora não conseguiu operar.
A mesma dificuldade vive a também aposentada Hilda Santana, de 77 anos. Sua filha chegou a buscar o mutirão de cirurgias, mas foi informada que elas só voltariam a ser marcadas em 2019.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Rio, 228 mil pacientes aguardam consultas, exames e cirurgias de baixa complexidade. O tempo de espera por uma consulta oftalmológica pode chegar a 681 dias.
Raphaela Jahara, coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria Pública do Rio, disse que a instituição solicitou à prefeitura que aumente a oferta de cirurgias contra catarata, mas não obteve resposta.
— Estamos apurando denúncias sobre pessoas que passaram na frente de algumas filas da Saúde, como no caso da mãe do prefeito Crivella no Hospital Salgado Filho. Essas filas têm que ser seguidas à risca, não pode haver critérios para que outras pessoas passem na frente. O critério é o risco e não a opção religiosa.

O GLOBO UIZ ERNESTO MAGALHÃES, BRUNO ABBUD E DIEGO AMORIM

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