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quinta-feira, 12 de março de 2020

REPRESENTANDO PERNAMBUCO

O grito do Nordeste é Coruja

O Sertão do Pajeú, representado pelo time de Afogados, simbolizado pela Coruja, vai unir o Estado, hoje, de canto a canto, numa torcida tensa e fervorosa. Estará em jogo, diante da Ponte Preta, em Campinas, o futuro de Pernambuco na Copa do Brasil. Credos, torcedores das mais variadas agremiações, cores, corações do Litoral ao Semiárido, todos, enfim, formarão, na verdade, uma forte corrente na torcida pelo Estado diante da TV.
O mundo mudou e o futebol também. O natural a se observar, hoje, em Campinas, seria a estampa tricolor, rubronega ou alvirrubra, representantes da elite futebolística do Estado. Mas quem estará em campo será um representante do Sertão, região ainda profundamente estigmatizada pelo banditismo de Lampião, pelos desdentados e analfabetos, os retirantes da e caminhantes sem destino, personagens célebres de Vidas Seca, retratadas na pena romanceada e dolorida de Graciliano Ramos.
A Coruja é a subversão da ordem, novo paradigma de uma face nova que vem sendo escrita em terras euclidianas, cunhada pela frase “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Para quem enxergou o Sertão pelo viés da enxada e da foice, o carro de boi, o vaqueiro derrubando gado brabo na caatinga, os aboios dos vaqueiros ou a viola gemendo em versos improvisados por glosadores e repentistas, tudo que passa agora em tempo real se apresenta como filme de ficção ver pela TV matutos transformados em profissionais da bola.
Amacia, entretanto, o ego de todos nós, sertanejos. Deixa-nos extremamente orgulhosos. No lugar do gibão e do chapéu do couro, a única imagem simbólica do Sertão que nos restará, hoje, no gramado do estádio da Ponte Preta, em contraste com a camisa tricolor, as chuteiras modernas e os calções cheios de propaganda, será o boné do goleiro Wallef, que deveria proteger apenas o sol, mas à noite ganha o charme do luaral.
O grito de guerra pela Coruja, hoje, não se restringirá, na verdade, ao universo pernambucano. Vai extrapolar. Afogados, hoje, é Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Piauí, Ceará e Maranhão. É o Nordeste de um sotaque só. A corrente está acesa. É sustentada pelo sol ardente e escaldante do Sertão.
Salve a Coruja!


por Magno Martins 

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