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segunda-feira, 12 de maio de 2014

VIOLÊNCIA DESTRUINDO FAMÍLIA

A violência que destruiu uma família

Daniel Ramos da Silva foi morto com um tiro na cabeça após um jogo do Sport

Morte de Daniel Ramos da Silva, em 2001, a primeira no estado causada por violência entre organizadas, foi esquecida pelo poder público


O corpo já franzino não suportou uma quantidade excessiva de álcool. A rotina de beber somente nos fins de semana se transformou em algo corriqueiro. Assim como a depressão que também se apoderou da empregada doméstica Aderita Ramos da Silva, mãe do primeiro torcedor morto no confronto entre torcidas organizadas na capital pernambucana. Daniel Ramos da Silva tinha somente 16 anos quando, ao sair do estádio da Ilha do Retiro, em 18 de março de 2001, levou dois tiros. Um na cabeça e outro no peito. Os projéteis atingiram em cheio a vida de Nerita, como era conhecida a moradora da Travessa do Congo, no bairro do Ibura de Baixo.
Após a morte do único filho homem (teve outras duas filhas), ela se entregou ao alcoolismo e não via mais graça na vida. Tinha planos para Daniel. Nerita tinha certeza que a vida da família ganharia fôlego quando o garoto completasse a maioridade. O emprego com carteira assinada era o sonho de Nerita. Daniel não pôde realizá-lo. Mas realizou outro.
Seu nascimento foi um sonho concretizado. Quando engravidou do garoto, Nerita trouxe dias de felicidade e expectativa para toda família. Pouco importou se o pai ‘o fez’ e nunca mais apareceu. “Minha irmã nunca teve sorte com homem. Eles vinham, faziam os filhos e iam embora”, declarou Rosângela Ramos, irmã de Nerita. Daniel recebeu atenção especial da tia materna, que cuidava do sobrinho enquanto a irmã trabalhava em casa de família, e também da avó, Lindinalva Ramos da Silva, que anos mais tarde se mudaria para São Paulo.
A mudança da mãe para o Sudeste foi outro baque para Nerita. A distância da mãe e, mais na frente, seu falecimento. Nerita foi definhando aos poucos. A partida prematura de Daniel desencadeou um processo de alucinações e choros compulsivos na mãe, que na época tinha 36 anos. Depois do enterro do filho, passou praticamente dois meses chorando. No trabalho, não conseguia cumprir a carga horária. Voltava para casa no meio da tarde. “Ela dizia que via o rosto dele por todo lugar. Só vivia chorando e dizia que não queria mais trabalhar. Quando a gente procurava por ela, já sabia que estava em alguma barraca bebendo”, conta Rosa.
Três anos após o falecimento do filho, ela entregou os pontos. Tragédia incompreensível para quem a conhecia. Logo, Nerita que era o retrato fiel da garra e disposição. Mulher de raça que passou dois dias dormindo ao relento com receio que invadissem um pequeno terreno, onde – com a ajuda da ex-patroa – construiria sua moradia. Espaço simples, de portas amarelas, dois quartos, banheiro e cozinha. A casa ainda está de pé. Nerita, não.
Depois de passar a noite bebendo em uma festa no Sesi do Ibura, ela foi atropelada por um carro e, ao tentar se equilibrar e ficar de pé novamente, foi atingida por um ônibus. Há quem diga que Nerita se jogou. A certeza que se tem é que ela desistiu de sentir saudades de Daniel.


Diario de Pernambuco

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