Tráfico de animais avança em Pernambuco e deixa rastro de mortes nas rodovias
Resgates nas rodovias quase triplicam em um ano. Aves são maioria e muitas não sobrevivem ao transporte ilegal
O canto que antes ecoava livre pela Caatinga ou pela Mata Atlântica tem se transformado em silêncio ou em um som forçado dentro de uma gaiola. Em Pernambuco, o tráfico de animais silvestres segue como uma sistema que arranca milhares de vidas da natureza todos os anos e revela uma cadeia que começa na captura ilegal, passa por rodovias e feiras livres, e termina, quando há sorte, em centros de reabilitação.
Dados obtidos mostram que, apenas nas rodovias federais do estado, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 587 animais em 2024, número que quase triplicou em 2025, chegando a 1.594 resgates. Em 2026, até o fim de março, já são 181. Nem todos chegam vivos.
Dentro de caixas improvisadas ou pequenos recipientes, conhecidos como “cumbucos”, aves e outros animais enfrentam calor, fome, sede e estresse extremo durante o transporte ilegal. A PRF ainda registrou 70 ocorrências em 2024, número que subiu para 89 em 2025. Em 2026 já são 21 casos.
O aumento está diretamente ligado à intensificação das operações e à criação de grupos especializados no combate aos crimes ambientais. Mas por trás dos números, há histórias de sofrimento.
Esse fluxo se materializa, muitas vezes, em cenas precárias e de sofrimento. “Quando a gente pega o traficante em trânsito com esses animais, cerca de 30% já está morto no cumbuco, e 70% muito debilitado”, afirma o gerente da unidade de gestão de fauna da CPRH, Iran Vasconcelos.
Mas a viagem que leva esses animais até as rodovias começa muito antes. Ela tem origem, na maioria das vezes, em áreas rurais no Agreste e Sertão, onde capturadores retiram filhotes e adultos da natureza. De lá, os animais passam por atravessadores, mudam de mãos e percorrem um caminho que pode incluir transporte clandestino e exposição em feiras livres, apontadas como os principais pontos de comercialização ilegal.
A Polícia Militar de Pernambuco confirma esse cenário. Em 2024, foram apreendidos 772 animais silvestres em 46 operações. Em 2025, houve um salto expressivo para 2.875 animais apreendidos em 51 operações. Em 2026, até agora, são 298 animais em cinco ações.
As ocorrências mais comuns envolvem fiscalizações em feiras, denúncias da população, transporte irregular e manutenção de animais em residências. O perfil predominante, segundo a corporação, é de pessoas físicas que mantêm animais em cativeiro doméstico ou os comercializam, muitas vezes sem perceber, ou ignorando, a dimensão do impacto causado.
Impacto difícil de ser mensurado
No Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) registrou a apreensão de 5.565 animais silvestres em 2024 e 12.278 em 2025. Em 2026, até março, já são 1.107. A maior parte dessas apreensões envolve aves, especialmente passeriformes, pequenos pássaros conhecidos pelo canto, como galo de campina, papa-capim, tico-tico e azulão.
Em Pernambuco, essa realidade é ainda mais evidente. “Cerca de 70% a 80% dos animais que entram nos centros são passeriformes. Existe uma cultura errada muito forte no nosso estado dessa criação”, afirma Irã Vasconcelos.
Ele aponta que o problema está também na forma como a sociedade enxerga esses animais. “As pessoas têm um perfil egoísta, tiram o animal da natureza, que poderia estar fazendo seu papel ecológico, e querem tê-lo em um poleiro dentro de casa para ver, brincar, ouvir. E aí o animal deixa realmente de fazer o seu papel ecológico na natureza.”
Esse papel, muitas vezes invisível aos olhos humanos, é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas. A retirada de aves compromete processos como dispersão de sementes e controle de populações de insetos, gerando um efeito em cascata.
“Quando você retira um animal da natureza, você deixa de gerar uma cadeia enorme de indivíduos. Um galo de campina pode gerar dezenas de descendentes diretos, que se multiplicam ao longo das gerações. Então o impacto é exponencial. Não é tirar um animal, é comprometer todo um ecossistema”, reforça o gestor.
Esse fenômeno, conhecido como “síndrome da floresta vazia”, transforma áreas aparentemente preservadas em ambientes onde a fauna desaparece e as funções ecológicas se perdem.
Pernambuco na rota do tráfico
Cidades como Recife e Caruaru aparecem com frequência como destinos, onde a demanda sustenta o ciclo. “Não existe uma rota específica. Os animais trafegam por diversos pontos, entrando e saindo do estado”, informa a PRF.
Resgate
Quando esses animais são resgatados, inicia-se uma nova etapa, que está longe de ser simples. Eles são encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetras), estrutura responsável por tentar reverter danos que, muitas vezes, são profundos. Somente este ano, 1.938 animais passaram pelo local.
“O Cetras faz o recebimento, a triagem, a reabilitação, a soltura e o monitoramento dos animais silvestres”, explica Irã. Nos últimos anos, mais de 20 mil animais passaram por essa unidade em Pernambuco. Em 2024, foram 8.573, enquanto em 2025 foram 10.115.
Ao chegar ao centro, o animal passa por avaliação clínica, recebe tratamento e é submetido pela etapa de reabilitação comportamental, a mais desafiadora. Isso porque o cativeiro altera profundamente o comportamento. “Quando o animal vai para o cativeiro, ele perde diversas coisas. Uma delas é a capacidade muscular. Um papagaio voa cerca de 30 quilômetros por dia. Preso, ele perde isso. E tem uma perda ainda mais difícil de reverter, que é a cognitiva. Ele fica imprintado, domesticado demais. Não vê o homem como ameaça e desconhece a própria espécie.”
A equipe do Diario de Pernambuco visitou o centro e presenciou centenas de papagaios em diversas fases de adaptação, sendo a primeira a triagem e a última a possibilidade de voo em um aviário de 800 metros com um cenário semelhante ao encontrado no habitat.
A recuperação exige tempo, estrutura e cuidado com medicamentos. “A gente primeiro trabalha a parte clínica. Depois, os biólogos entram na parte cognitiva e muscular. Colocamos esses animais em viveiros, com alimentos naturais, com outros indivíduos, para que voltem a se sociabilizar, definir hierarquia, reaprender a viver”, explica o gerente do Cetras.
Em seguida, eles são levados para áreas protegidas, onde passam por um período de aclimatação. “Eles ficam de 30 a 60 dias nesses viveiros. Depois, a gente abre a porta. Eles vão. Se sentirem necessidade, podem voltar. Até que chega o momento em que não voltam mais.”
Nem todos conseguem e muitos chegam debilitados. Outros carregam sequelas irreversíveis, como uma águia que foi alvo de 15 tiros e hoje vive no centro.
“A gente também recebe animais baleados. Chegam aqui muitos rapinantes, principalmente na época de reprodução, vítimas de tiro de espingarda de chumbinho ou espingarda de fecho. A águia que está aqui vai passar por uma segunda cirurgia. Foi resgatada por mim mesmo, lá em Caruaru. O animal fez outro raio-x e foram encontrados mais fragmentos de chumbo, inclusive na cabeça”, conta Iran.
Apesar disso, algumas histórias conseguem escapar da lógica da perda. “Teve um papagaio que passou 36 anos em cativeiro. Ele conseguiu se reabilitar, formar casal e teve filhos, netos e bisnetos em vida livre”, relembra o gerente.
Tráfico além das rodovias
O tráfico, por sua vez, continua se adaptando. Antes concentrado em feiras, hoje também se expande para o ambiente digital, com negociações feitas por redes sociais e aplicativos de mensagem. A fiscalização tenta acompanhar esse movimento com ações de inteligência e monitoramento, mas enfrenta a alta demanda.
“Não existe demanda sem comprador. Se ninguém comprar, o tráfico acaba. A principal solução é a educação ambiental. O ser humano faz parte do ecossistema. Ele tem consciência. Se tem informação e não muda, tem algo errado”, resume Irã. Ele destaca que a prática está enraizada na cultura local.
As denúncias contra tráfico de animais podem ser feitas ao Ibama pelo número 0800 061 8080 ou à Polícia Militar pelo contato (81) 3184-7119.
Adelmo Lucena

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