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terça-feira, 14 de abril de 2026

O DESESPERO DE LULA COM A ELEIÇÃO

Após fracasso, Lula tenta novo programa para aliviar endividamento às vésperas da eleição

Mais brasileiros desaprovam trabalho de Lula, aponta Datafolha. (Foto: EFE/André Borges)

Pressionado pelo calendário eleitoral, o governo Lula corre para atacar o que identifica como o principal fator por trás da sua perda de popularidade: o endividamento das famílias.

Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas divulgado em 30 de março mostrou que o governo Lula é desaprovado por 52% dos brasileiros. O índice de desaprovação manteve-se estável em relação a fevereiro, no maior patamar desde agosto de 2025.

No diagnóstico do Planalto, o peso das parcelas tem anulado, no dia a dia, os efeitos de uma economia que cresce, com desemprego em baixa e medidas de alívio tributário, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda.

O desenho de um “Desenrola turbinado” – nova versão do programa de renegociação de dívidas lançado no início do governo – foi apresentado a Lula nesta terça-feira (7) pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan. O substituto de Fernando Haddad promete anunciar a proposta até a próxima semana.

O governo pretende trabalhar com dois focos principais: de um lado, pessoas de baixa renda com dívidas em atraso entre 60 e 360 dias, que seriam incentivadas a renegociar seus débitos. De outro, consumidores ainda adimplentes, mas com alto comprometimento da renda, que seriam estimulados a trocar linhas de crédito mais caras por opções mais baratas.

A base do programa é usar um fundo garantidor – principalmente o Fundo de Garantia de Operações (FGO) – para destravar descontos nas dívidas. A lógica do programa é que quanto maior o desconto concedido pelo banco, maior o acesso às garantias do governo em novos empréstimos

Medidas incluem uso do FGTS para quitar dívidas

Em paralelo, a Fazenda avalia outras frentes. Uma delas é liberar parte do FGTS para quitar dívidas, o que ajudaria a abrir espaço no orçamento das famílias. Cerca de 10 milhões de brasileiros poderão ter acesso a aproximadamente R$ 7 bilhões em recursos do FGTS no âmbito da proposta, segundo o Ministério do Trabalho.

A ideia foi confirmada por Durigan após a reunião com Lula. Neste domingo (12), Durigan confirou à Folha de S. Paulo que trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105) poderão sacar até 20% do seu saldo para quitar dívidas. A proposta enfrenta resistência pela distorção do uso do recurso como suporte ao desemprego.

Também está na mesa usar o FGTS como garantia no consignado privado, para reduzir juros e ampliar o acesso ao crédito. A Fazenda avalia que os juros do consignado estão mais altos do que o esperado, perto de 4%, quando a previsão era abaixo de 3%.

O governo também quer revisar os programas anteriores, tanto o consignado privado como o Desenrola, para avaliar os motivos que levaram parte das pessoas a ficarem de fora ou a voltarem a se endividar.

Outra frente de discussão é limitar o uso de dinheiro em apostas. Lula tem dito que parte dos endividados gasta com bets. Uma proposta seria vincular o acesso ao programa a algum tipo de restrição temporária a esse tipo de gasto.

Pontos polêmicos ainda em estudo

Para dar escala ao programa, o governo avalia usar cerca de R$ 10,5 bilhões em recursos esquecidos no sistema financeiro para reforçar o fundo garantidor. A proposta é a mais avançada, mas enfrenta críticas de interferência em recursos privados – e resistência dos bancos, que perderiam uma fonte barata de funding, ou seja, de captação de recursos para financiar suas operações.

Além disso, há um problema fiscal: esse dinheiro não pode ser contabilizado como receita ao entrar no Tesouro, mas vira despesa ao ser direcionado ao fundo, o que exige um arranjo para não pressionar o orçamento.

No mesmo sentido, a proposta de redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas novas dívidas renegociadas, colocada na mesa de negociação, também enfrenta resistência da equipe econômica que não quer abrir mão da receita por razões fiscais.

Outra linha em estudo é um “Desenrola PJ”, voltado para pequenas empresas e MEIs. O alcance, porém, depende do tamanho das garantias disponíveis via FGO ou outro fundo.

Medidas podem dar alívio, mas não resolvem endividamento

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo veem com ceticismo as medidas em formulação. Para Lívio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV-Ibre), as políticas em desenho podem até dar algum fôlego ao reduzir o comprometimento da renda no curto prazo.

“Mas, se não vierem acompanhadas de um processo de contenção do endividamento, o que vai acontecer é simples: abre-se espaço no orçamento das famílias para que tomem mais dívida, e a bola de neve aumenta", afirma.

Hoje, o Brasil convive simultaneamente com alto estoque de dívidas e elevado comprometimento da renda. O percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março. Este é o maior índice da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Segundo dados de janeiro do Banco Central, a parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas atingiu 29,3% do orçamento em janeiro, o maior nível da série histórica.

“O problema principal não é apenas o tamanho da dívida, na faixa de metade dos rendimentos. É o peso que ela exerce sobre a renda das famílias”, afirma Roberto Dumas, economista do Insper.

“Em termos simples, quem ganha R$ 100 deve cerca de R$ 50. Isso, isoladamente, não seria tão preocupante. O ponto crítico está no comprometimento da renda, com cerca de 30% do que as famílias ganham destinado ao pagamento de juros e amortizações, um dos níveis mais altos do mundo.”

Perfil do crédito é cruel para tomador

Esse quadro está diretamente ligado ao custo e ao perfil do crédito no país. Segundo Dumas, trata-se, em grande parte, de crédito de curto prazo e com juros elevados. “Muitas famílias acabam recorrendo a linhas como o cartão de crédito, com taxas que podem chegar a cerca de 300% ao ano.”

O crédito rotativo é o exemplo mais claro dessa dinâmica. O volume financiado nessa modalidade – quando o consumidor paga apenas parte da fatura e carrega o restante com juros – avançou 32,7% em 12 meses até fevereiro, a maior alta entre as linhas de crédito livre para pessoa física. É também a mais cara: juros em torno de 15% ao mês, ou cerca de 435% ao ano, ainda assim amplamente utilizada para fechar o orçamento mensal.

Estudo do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif), em parceria com o Banco Central, mostra que o comprometimento da renda superou 30% entre beneficiários do Bolsa Família no fim de 2024, acima da média nacional.

“O peso do comprometimento e da inadimplência recai justamente sobre a população de menor renda, que já enfrenta maior compressão de consumo”, diz Ribeiro. "Nesse contexto, medidas pontuais de alívio, como isenções ou renegociações, tendem a ter efeito limitado e temporário."

Solução passa por educação financeira

Em 2022, durante a campanha eleitoral, Lula prometeu reduzir o endividamento das famílias, que já estava em nível recorde ao fim do governo Jair Bolsonaro, após a pandemia de Covid-19. O Desenrola, para renegociação de dívidas, foi lançado no início de 2023.

O programa gerou alívio temporário, mas o efeito foi passageiro. Com a alta dos juros (hoje em 14,75% ao ano) para conter a inflação, os indicadores voltaram praticamente ao mesmo patamar de 2022.

Apesar do peso do crédito, Dumas destaca que a política monetária cumpre seu papel. “Não é o juro que mais prejudica o mais pobre, é a inflação. Cerca de 70% da população ganha de um a dois salários mínimos, e a inflação corrói diretamente essa renda.”

Para Ribeiro, o cenário reflete também a expansão do uso de linhas mais caras, impulsionada pela maior oferta via fintechs. "As pessoas têm cada vez mais acesso a instrumentos de crédito. Muita gente trata crédito como se fosse renda, mas não é. É passivo, é dívida", afirma.

No limite, resume o economista, a solução do endividamento passa por políticas de educação financeira. “Mas isso leva tempo e não conversa com o calendário eleitoral", prossegue.

Metodologia da pesquisa eleitoral citada:

2.080 entrevistados pelo Paraná Pesquisas entre os dias 25 e 28 de março de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-00873/2026.



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