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terça-feira, 11 de agosto de 2026

SAÚDE DO PROFESSOR

78% dos professores do Recife relacionam adoecimento mental ao trabalho, diz pesquisa

Greyce Nascimento é uma das docentes que teva a saúde afetada por problemas na rede municipal de ensino (Foto: Mauricio Ferry/DP Foto)


Levantamento divulgado pelo SIMPERE nesta segunda-feira (10) reúne 478 respostas. Ansiedade, estresse e depressão foram os diagnósticos mais citados pelos participantes


Uma pesquisa realizada pelo Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (SIMPERE) aponta um cenário de adoecimento psicológico entre professores da rede municipal do Recife. A ansiedade foi o diagnóstico mais citado entre eles, mencionada por 61,9% dos participantes.

Além disso, das 478 respostas consideradas válidas no levantamento, 78% dos participantes afirmaram que seus diagnósticos estão diretamente relacionados ao ambiente de trabalho. Depois da ansiedade, os professores citaram também estresse (49,2%), depressão (39,5%) e burnout (25,9%). Os dados foram divulgados pelo sindicato nesta segunda-feira (10).

O levantamento foi realizado por meio de formulário on-line e reuniu respostas quantitativas e relatos sobre as experiências dos profissionais. Segundo o documento, o objetivo foi identificar os principais fatores relacionados ao sofrimento mental dos professores, o perfil dos participantes e a percepção sobre a assistência oferecida durante o processo de adoecimento.

Entre os fatores apontados pelos participantes como desencadeadores dos problemas de saúde, esa falta de estrutura adequada no ambiente de trabalho aparece em primeiro lugar, mencionada por 32,6% dos respondentes.

Na sequência estão relatos de abuso de poder e assédio (19,2%), salas lotadas (15,5%) e sobrecarga de trabalho (15,3%). Também foram mencionadas imposições, metas e cobranças excessivas relacionadas a projetos (8,2%).

Os resultados mostram ainda que a percepção de relação entre saúde mental e trabalho é predominante entre os participantes. Além dos 77,6% que responderam que existe relação direta, 16,9% disseram não ter certeza e 3,8% afirmaram que não identificam essa ligação.

Entre os diagnósticos mencionados na pesquisa, a ansiedade aparece em primeiro lugar, citada por 61,9% dos participantes. O estresse foi mencionado por 49,2%, enquanto a depressão apareceu em 39,5% das respostas. Burnout teve 25,9% das menções.

Para Bianca Cássia, diretora do SIMPERE e integrante do coletivo Acolher, os fatores de ordem psicológica aparecem como os principais motivos de adoecimento relatados pelos profissionais “O que a pesquisa demonstra é que os maiores fatores de adoecimento e afastamento da sala de aula entre professoras e professores são ansiedade, depressão, pânico e, depois, burnout.”

A dirigente ressalta que a pesquisa tem caráter exploratório e que não foi realizada uma avaliação clínica para estabelecer uma relação de causa e efeito entre os diagnósticos. Segundo ela, a pesquisa foi baseada em respostas espontâneas dos professores. “Como essa foi uma pesquisa espontânea, ainda não foi feita nenhuma intervenção no sentido de identificar, por exemplo, se determinada ansiedade ou depressão está relacionada ao burnout.”

O documento também destaca que os relatos abertos apontaram recorrências como exaustão, desmotivação, falta de estrutura, cobranças excessivas, assédio moral, desvalorização profissional, dificuldades relacionadas à inclusão de alunos com necessidades especiais, violência e indisciplina no ambiente escolar.

Falta de assistência

A pesquisa também investigou a percepção dos professores sobre a assistência recebida durante o período de afastamento. Dos 478 participantes, 227 afirmaram que não receberam assistência, enquanto apenas 12 relataram ter sido atendidos pelo programa Bem-Estar. Outras 239 respostas foram agrupadas como “outros”, reunindo relatos variados que também indicavam falta de apoio.

Segundo Bainca, professores que adoecem são encaminhados ao Departamento de Atendimento ao Servidor (DAIS) e orientados a procurar atendimento médico. A partir da avaliação médica, pode ser solicitado o afastamento da sala de aula e a readaptação do profissional.

O impacto do adoecimento aparece também nos relatos individuais coletados pelo sindicato. É o caso da professora Greyce Falcão, que afirma ter desenvolvido problemas de saúde ao longo do último ano e está afastada há 70 dias por questões de saúde mental.

Professora há quase 20 anos, ela afirma que nunca havia precisado se afastar da sala de aula. Segundo Greyce, entre as dificuldades encontradas na rotina estavam salas com muitos estudantes, alunos não alfabetizados e falta de apoio para atender estudantes com necessidades específicas.

Ela relata que tinha 26 alunos em uma turma, dos quais 16 não eram alfabetizados. “Eu não consigo alfabetizar 16 alunos, dar aula para oito que são alfabetizados e ainda cuidar dos alunos atípicos sozinha”, afirma.

Os sintomas também começaram a aparecer durante o expediente. “Durante as aulas, eu percebia um aumento da pressão, por causa da dor de cabeça, da dor na nuca. O coração disparava e eu percebia que estava tendo uma crise de ansiedade. Comecei a passar mal durante as aulas e também quando chegava em casa”, conta. Greyce diz que procurou atendimento psicológico e psiquiátrico por iniciativa própria.

Pesquisa terá nova etapa

O SIMPERE pretende ampliar o levantamento nas próximas semanas. Segundo Bianca Cássia, no dia 11 de agosto representantes das unidades escolares participarão de uma atividade preparatória. No dia 13, os chamados delegados de base deverão retornar às escolas para dialogar com outros professores e aplicar uma nova pesquisa, de caráter qualitativo e com abrangência maior na rede.

Os resultados deverão ser discutidos em um seminário marcado para 20 de agosto. A atividade terá participação de representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), da área de saúde do trabalhador, além de integrantes da academia.

“É nesse momento que vamos discutir quais serão as nossas reivindicações para garantir práticas preventivas para os professores e, quando o professor adoecer, quais medidas vamos reivindicar para garantir o atendimento e o acompanhamento adequado”, afirma Bianca.

Adelmo Lucena

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