GIF Patrocinador

GIF Patrocinador

sábado, 8 de agosto de 2026

LIDERANÇA NEGATIVA

Nordeste lidera mortes de crianças por cardiopatias congênitas com causas inespecíficas

Estudo, apresentado no Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D'OR, destaca que os primeiros meses de vida concentram o maior risco às doenças (Crédito: Rede D'Or/Divulgação)

Pesquisa apresentada no Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or mostra que 39% das mortes por malformações congênitas em brasileiros com menos de 20 anos estão ligadas ao coração


O Nordeste e o Norte do Brasil concentram a maior proporção de causas inespecíficas nos registros de mortes por cardiopatias congênitas, o que dificulta o diagnóstico e acesso ao tratamento especializado. O dado faz parte de um estudo apresentado no Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or, realizado entre os dias 6 e 8 de agosto, no Rio de Janeiro, que analisou a mortalidade por malformações congênitas do aparelho cardiovascular em crianças e adolescentes brasileiros.

O trabalho, intitulado “Mortalidade por Malformações Congênitas do Aparelho Cardiovascular em Crianças no Brasil: Uma Análise Epidemiológica”, aponta que, entre 2015 e 2025, foram registrados 144.057 óbitos por malformações congênitas em menores de 20 anos no país.

Desse total, 39% estavam relacionados a cardiopatias congênitas e 55% das mortes ocorreram em crianças com menos de um ano de idade. O estudo também estimou uma taxa de mortalidade de 5,3 óbitos por 100 mil habitantes.

As cardiopatias congênitas são alterações estruturais do coração que surgem ainda durante a gestação, quando o órgão está sendo formado. Diferentemente das doenças cardiovasculares adquiridas ao longo da vida, como infarto, hipertensão ou colesterol elevado, elas já estão presentes no nascimento e podem variar desde pequenas alterações até malformações graves que exigem cirurgia nos primeiros dias de vida.

A incidência é de aproximadamente um caso para cada 100 nascidos vivos, o que faz delas a malformação congênita mais frequente na infância.

Segundo a cardiologista Vivian de Biase, especialista em cardiopatias congênitas no adulto, trata-se de uma condição que acompanha o paciente desde o nascimento e que pode exigir acompanhamento por toda a vida. Ela explica que a gravidade pode variar bastante.

“Às vezes, é só um buraquinho que fica no músculo cardíaco e faz com que o sangue passe de uma forma inadequada. Às vezes, é uma má-formação um pouco mais complexa. Muitas vezes, o paciente precisa ser operado com dias de vida. Então, isso gera um impacto não só emocional para os pais receberem essa notícia, mas também um impacto para o próprio paciente. E o paciente com cardiopatia congênita pode, ao decorrer da sua vida, passar por cinco, seis cirurgias, às vezes inúmeros procedimentos, e chegar até a idade adulta.”

Diagnóstico precoce

Os avanços no diagnóstico e no tratamento mudaram o prognóstico dessas crianças nas últimas décadas. Atualmente, muitas chegam à vida adulta com boa qualidade de vida.

“Hoje em dia, com tudo isso que está acontecendo, elas chegam à idade adulta. As mulheres podem ter filhos, em determinados tipos de cardiopatia. Podem praticar esportes”, explica a cardiologista.

De acordo com Vivian de Biase, há mais adultos vivendo com cardiopatias congênitas do que crianças, justamente porque a sobrevida aumentou. “A incidência continua a mesma: é 1%. Então, de cada 100 nenéns que nascem, um vai nascer com problema cardíaco congênito. Só que, conforme as técnicas foram ficando mais modernas, a idade foi aumentando. Atualmente, no mundo todo, existem mais portadores de cardiopatias congênitas adultos do que crianças.”

Estimativas do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registra cerca de 28 mil crianças com anomalias congênitas diagnosticadas ao nascimento por ano, No entanto, o número real seja provavelmente maior devido à subnotificação e às dificuldades de diagnóstico precoce. As anomalias congênitas respondem por aproximadamente 24% dos óbitos infantis no país.

Bebês são os mais vulneráveis

Os resultados do estudo destacam que os primeiros meses de vida concentram o maior risco. Mais da metade dos óbitos ocorreu antes de a criança completar um ano. Segundo a cardiologista, isso acontece porque as formas mais graves costumam se manifestar logo após o nascimento.

“Nós ainda temos patologias muito graves. Corações que realmente são quase incompatíveis com a vida. E o óbito ocorre com mais frequência em crianças menores de 1 ano, porque são pacientes mais difíceis de a gente lidar. O manejo de medicação é mais difícil e o pós-operatório também.”

Entre as cardiopatias de maior gravidade estão as chamadas cardiopatias cianogênicas, que reduzem a oxigenação do sangue e podem deixar o bebê com coloração arroxeada. Um dos exemplos é a síndrome da hipoplasia do coração esquerdo, considerada uma das malformações mais complexas.

O diagnóstico pode ser realizado ainda durante a gestação por meio do ecocardiograma fetal, exame de ultrassom que avalia a formação do coração do bebê. Quando a doença é identificada antes do nascimento, é possível organizar todo o atendimento para aumentar as chances de sobrevivência do recém-nascido.

“Se ela for diagnosticada no útero, o parto da gestante vai ser todo programado. Já vai ter todo o cuidado preparado para aquele momento. Tem toda uma equipe de cirurgião, hemodinamicista e UTI preparada para receber esse bebê. Às vezes, já existem intervenções que podem ser feitas com o neném ainda na barriga. Isso muda completamente o curso da doença e a evolução desse paciente.”

As diretrizes da cardiologia fetal apontam que o ecocardiograma fetal é o principal exame para identificar malformações cardíacas ainda durante a gravidez, permitindo o planejamento do parto e do tratamento especializado quando necessário.

No entanto, nem todas as cardiopatias são diagnosticadas antes do nascimento. Por isso, alguns sinais após o parto merecem atenção dos pais e dos profissionais de saúde.

“Primeiro de tudo, e o mais grave, é uma coloração mais azulada, mais roxinha ao redor dos lábios e na ponta dos dedos. As mães também devem ficar atentas ao bebê que chora quando mama, que não ganha peso e que fica mais cansado”, esclarece a especialista.

Esses sintomas podem indicar dificuldade do coração em bombear sangue adequadamente e exigem avaliação médica imediata. O diagnóstico precoce continua sendo um dos principais fatores para reduzir a mortalidade infantil causada por essas malformações.

Adelmo Lucena 

Nenhum comentário:

Postar um comentário