Passos de Janot e futuros protestos preocupam Temer
Os efeitos políticos do depoimento de José Yunes à Procuradoria Geral da República geram desconfiança sobre a capacidade do governo de aprovar as reformas no Congresso. Amigo e ex-assessor especial da Presidência, Yunes disse que recebeu em seu escritório em 2014 o doleiro Lúcio Funaro a pedido do hoje ministro licenciado da Casa Civil, Eliseu Padilha. Funaro teria deixado no escritório um envelope no qual haveria propina da Odebrecht para peemedebistas.
Se obtiver êxito na Câmara, Temer avalia que o caminho estará pavimentado no Senado e que os agentes econômicos receberão um sinal importante para guiar as suas expectativas. Em resumo, Temer terá nos próximos dias e semanas o desafio de não deixar a peteca cair.
A ausência de Padilha, temporária ou definitiva (a depender dos desdobramentos da crise gerada pelo depoimento de Yunes), dificulta um pouco a negociação das reformas, mas não inviabiliza a articulação.
Padilha já vinha perdendo poder no governo por falar demais e produzir notícias negativas. Ele ocupa uma pasta muito importante, mas a articulação política do governo Temer sempre contou com forte participação do presidente. Temer se envolveu diretamente nas articulações para aprovar a PEC do Teto na Câmara e no Senado, por exemplo.
O presidente terá de agir do mesmo jeito agora. O PSDB assumiu a pasta da articulação política, a Secretaria de Governo. Isso compromete mais os tucanos com o governo.
Temer sabe que não terá vida fácil no Congresso, porque cresceram as resistências à reforma da Previdência. Mas as concessões que o governo está disposto a fazer em relação à proposta original de reforma da Previdência já estão sendo debatidas nos bastidores.
O maior risco para o governo e a sua base de apoio no Congresso reside nas medidas que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, adotará em relação às delações da Odebrecht. Há expectativa de quebra de sigilo das delações da Odebrecht e de pedidos de abertura de inquérito e até de eventuais denúncias com base nessas colaborações.
A depender das figuras políticas do governo, do PMDB e do PSDB que forem atingidas, haverá dano considerável à administração Temer e ao Congresso.
Também existe preocupação no governo com as manifestações convocadas para 26 de março, um domingo. No Carnaval, ocorreram protestos contra o governo, sobretudo com o coro de “Fora, Temer” em blocos de rua. Se fatos políticos derem gás às manifestações marcadas para 26 de março, isso poderá criar dificuldades para a governabilidade de Temer.
No entanto, o presidente não tem alternativa. Temer avalia que precisa abraçar a sua base de apoio no Congresso para tentar atravessar a tempestade. Essa base de apoio tampouco teria opção melhor: aprovar as reformas da Previdência e trabalhista propostas por Temer seria uma forma de enfrentar danos da Lava Jato, entregando um conjunto de medidas que a elite econômica defende como necessário ao país.
Em resumo, Temer e sua base de apoio buscariam alguma blindagem política por meio da economia.
Blog do Kennedy