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sábado, 6 de junho de 2026

TUBARÕES EM PERNAMBUCO

Monitoramento de tubarões em Pernambuco precisa virar política de Estado, diz cientista

Placa de alerta na Praia de Piedade, onde menino de 11 anos foi mordido por tubarão (Rafael Vieira/DP Foto)

Cientistas defendem que incidentes com tubarões podem ser reduzidos em Pernambuco com recuperação ambiental e uma política de Estado contínua para monitoramento e educação da população


Com quatro incidentes envolvendo tubarões em 2026, Pernambuco não dispõe de uma política de Estado de monitoramento e educação ambiental voltada para tubarões. É o que aponta o professor de Engenharia de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Paulo Oliveira, membro da equipe responsável por vencer o edital do Governo de Pernambuco, captando R$ 1 milhão para dois anos de monitoramento em Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.

Apesar de reconhecer a importância do recurso, o pesquisador destaca que o monitoramento precisa acontecer de forma contínua e lembra que o estado está desde 2015 sem acompanhar os animais. “Esse recurso que recebemos agora para monitoramento não foi dado, nós conquistamos através de um edital. O monitoramento não pode depender de escolhas políticas de governo A ou B, mas ser transformado em uma política de Estado, com recursos garantidos inclusive para educação da população”, destaca Oliveira.

O pesquisador afirma que a descontinuidade do programa de monitoramento da UFRPE, lançado no início dos anos 1990, impede que os cientistas analisem a situação da costa pernambucana com precisão, através de uma série histórica. Ele também lembra que novos tubarões nascem, crescem e morrem de maneira dinâmica, bem como ressalta que as mudanças climáticas têm afetado o comportamento das espécies no mundo inteiro.

“É cada vez mais comum, em vários lugares do planeta, que os tubarões estejam se aproximando da costa. E aí quando a gente vai ter uma série histórica bacana, o monitoramento precisa acabar porque o financiamento é descontinuado”, comenta.

Para Oliveira, Pernambuco deveria dispor de um Centro de Referência para monitoramento e conservação marinha, com recursos previstos no orçamento estadual e atuação contínua, independentemente de mudanças de governo. “Os incidentes deste ano aconteceram com duas crianças e uma jovem de 19 anos. Isso reforça a necessidade de ampliar as ações educativas junto à população, inclusive nas escolas”, acrescenta.

Prevenção em risco

A diretora-presidente do Instituto PROSHARK, Fernanda Lana, ressalta que a interrupção do monitoramento coloca em risco as medidas de prevenção que já foram tomadas. A instalação das placas de alerta nas áreas de risco, por exemplo, é realizada a partir de dados obtidos pelo acompanhamento dos animais.

“O que balizou a colocação dos alertas foi o monitoramento realizado até 2015. Temos muita informação coletada no passado, mas sem a continuidade do trabalho, você não consegue entender como é o uso atual do ambiente”, explica a pesquisadora, que é mestre e doutora em Recursos Pesqueiros e Aquicultura pela UFRPE.

Ela também ressalta que os dados de monitoramento são essenciais para o desenvolvimento de políticas públicas. “Muitas vezes, a sociedade cobra os cientistas por resultados concretos das pesquisas, mas nós não somos tomadores de decisão. A pressão deve acontecer para que o poder público utilize esses dados para agir com eficiência”, afirma.

Recuperação ambiental

Para a pesquisadora, Pernambuco também precisa avançar na recuperação dos ecossistemas costeiros, especialmente dos manguezais historicamente impactados por aspectos como expansões urbanas e portuárias, além da pesca predatória. “É preciso utilizar os recursos de compensação ambiental para recuperar os manguezais, que são a base do ecossistema marinho e têm sido degradados a décadas”, diz Fernanda Lana.

Segundo a pesquisadora, restaurar habitats degradados não eliminaria completamente os incidentes, mas poderia reduzir a frequência dos encontros entre humanos e tubarões. “Com maior disponibilidade de alimento, áreas recuperadas, a interação certamente irá diminuir. Pode não acabar, mas vai diminuir”, acrescenta.

Outro lado

Por meio de nota, a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha (Semas) de Pernambuco disse que, entre 2023 e 2026, foram fomentados 14 projetos estratégicos diretamente relacionados aos objetivos do CEMIT e do PEAST/PE, "evidenciando o fortalecimento progressivo das ações de prevenção, pesquisa, monitoramento e educação ambiental". Além disso, a Semas informou que estuda a criação de um mecanismo permanente de financiamento dessas ações por meio do Fundo Estadual de Meio Ambiente (FEMA), proposta atualmente em análise técnica e institucional.

De acordo com a pasta, os recursos de compensação ambiental são disciplinados pela Lei Federal nº 9.985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC), regulamentada pelos Decretos Federais nº 4.340/2002 e nº 6.848/2009. Em Pernambuco, a matéria é regulamentada pela Lei Estadual nº 13.787/2009 e pelo Decreto Estadual nº 56.515/2024.

"De acordo com esse conjunto normativo, os recursos de compensação ambiental devem ser destinados prioritariamente à criação, implantação, regularização fundiária, proteção, gestão e consolidação de unidades de conservação. Por essa razão, as ações de pesquisa, monitoramento, educação ambiental, comunicação socioambiental e prevenção de incidentes com tubarões são financiadas por outras fontes, como recursos do Tesouro Estadual, editais de pesquisa e inovação, parcerias institucionais, convênios e demais instrumentos de fomento ambiental e científico", disse a Semas.

A secretaria ainda destacou que a promoção do Edital Plantar Juntos Manguezal, com investimento que apoiou ações de restauração em Ipojuca, Paulista, Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes. "Ao todo, foram investidos mais de R$ 1,2 milhão em restauração de manguezais e corais entre os anos de 2024 e 2026", coloca o posicionamento.

Atualmente, segundo a Semas, o CEMIT está concluindo a revisão e consolidação dos dados históricos e dos registros mais recentes de incidentes envolvendo tubarões, com o objetivo de qualificar as informações sobre as espécies envolvidas nos incidentes registrados em Pernambuco. "Os resultados dessa análise serão divulgados em breve pelo Comitê, após a finalização das avaliações técnicas em andamento", conclui a nota.

Marília Parente


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