“Eu sou jornalista, não sou militante”: Alexandre Garcia defende liberdade e independência
Garcia resgata trajetória de oito décadas e afirma que jornalista não pode abrir mão da liberdade de contrariar
Aos 85 anos, Alexandre Garcia subiu ao palco do 13º Fórum Caminhos da Liberdade carregando uma experiência incomum no jornalismo brasileiro. Ao receber o Prêmio Liberdade de Imprensa, promovido pelo Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, transformou o agradecimento em uma reflexão sobre imprensa, poder, redes sociais e o papel do jornalista em uma sociedade marcada pela polarização.
A ideia central de sua fala foi resumida em uma definição simples: o jornalista precisa preservar a liberdade para contrariar inclusive o próprio público.
Alexandre afirmou que percebe hoje profissionais e veículos receosos de confrontar suas audiências, especialmente em ambientes politicamente polarizados. Para ele, quando um jornalista passa a ajustar seu trabalho ao que determinado grupo espera ouvir, perde parte essencial da autonomia necessária ao exercício da profissão.
Essa visão não surgiu agora. Nos últimos anos, tornou-se uma das marcas dos artigos que Alexandre Garcia publica na Revista Oeste, onde é colunista desde 2023. Em seus textos, tem sustentado que a liberdade de expressão constitui um dos fundamentos do regime democrático e criticado decisões do Supremo Tribunal Federal que, em sua avaliação, ultrapassam limites constitucionais.
Em artigo publicado em junho de 2025, por exemplo, Alexandre abordou a discussão sobre censura e liberdade e argumentou contra mecanismos que, sob a justificativa de combater a desinformação, possam resultar em restrições à manifestação de opiniões. Em outras manifestações, criticou decisões do STF relacionadas à responsabilização das plataformas digitais e advertiu para aquilo que considera um risco de expansão de mecanismos de controle sobre o debate público.
No palco, Alexandre Garcia recorreu diversas vezes à própria trajetória para explicar de onde vem essa preocupação.
Nascido em Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul, em 11 de novembro de 1940, começou a trabalhar no rádio ainda jovem. Formou-se em Comunicação Social pela PUC-RS e construiu uma carreira que passou pelo rádio, jornal, televisão e, mais recentemente, pelas plataformas digitais. Trabalhou no Jornal do Brasil, na TV Manchete e ingressou na Rede Globo em 1988, onde exerceu funções como repórter, comentarista político, apresentador e diretor de jornalismo em Brasília. Permaneceu na emissora durante 30 anos, até 2018. Atualmente, mantém forte presença digital, além de publicar artigos e comentários políticos.
Ao percorrer a própria biografia durante o discurso, Alexandre mencionou também sua passagem pela Presidência da República durante o governo do general João Baptista Figueiredo, último presidente do ciclo militar. Tratou o episódio como parte de seu percurso profissional, sem procurar atribuir-lhe significado maior:
“Fui porta-voz de Figueiredo, porta-voz secundário, mas, enfim, estive lá 18 meses, vi como funciona a Presidência da República.”
A passagem pelo governo ocorreu antes de sua longa trajetória na televisão e integra um currículo profissional que permitiu a Alexandre Garcia acompanhar de posições muito diferentes algumas das principais transformações políticas e institucionais brasileiras das últimas décadas.
No discurso em São Paulo, Alexandre recuperou episódios que atravessaram sua própria vida: nasceu durante o Estado Novo, era estudante quando ocorreu o suicídio de Getúlio Vargas, acompanhou as crises políticas envolvendo a posse de Juscelino Kubitschek e a renúncia de Jânio Quadros, viveu o regime militar, a abertura política, a redemocratização e a Constituição de 1988.
Essas lembranças serviram como ponto de partida para uma advertência sobre o presente. Alexandre declarou acreditar que o país atravessa um período no qual direitos individuais e garantias constitucionais precisam ser permanentemente defendidos. Essa posição também aparece com frequência em sua produção recente na Oeste, especialmente nas críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao que considera uma ampliação excessiva do poder estatal sobre a manifestação de opiniões.
O jornalista também voltou a um tema que provocou forte controvérsia durante a pandemia de covid-19. Alexandre Garcia foi crítico dos lockdowns, de determinadas exigências sanitárias e da maneira como parte da imprensa tratou o período. Algumas das posições que defendeu, sobretudo em relação a medicamentos apresentados como possíveis tratamentos para a doença, foram contestadas pela comunidade científica e por autoridades sanitárias. Sua saída da CNN Brasil, em 2021, ocorreu em meio a essa discussão. Posteriormente, Alexandre classificou como paradoxal ter deixado justamente um quadro chamado Liberdade de Opinião.
No Fórum, procurou deslocar essa discussão específica para um princípio que considera essencial ao jornalismo. Disse que o profissional não pode funcionar como militante nem adaptar os fatos às próprias convicções.
“Eu sou jornalista, não sou militante.”
Alexandre defendeu uma separação clara entre informação e opinião. Para ele, primeiro é necessário apresentar o fato tal como foi apurado; depois, em espaço opinativo, é legítimo analisá-lo e criticá-lo.
“Eu sou escravo do fato e deixo muito claro que a minha opinião não importa. Eu não sou dono da verdade.”
Na sequência, fez uma defesa enfática da crítica e do contraditório. Alexandre afirmou enxergar a discordância não como agressão, mas como instrumento capaz de corrigir erros e obrigar quem é questionado a refletir sobre suas próprias posições.
“A crítica, o contraponto, a discordância ajudam porque fazem a gente pensar.”
Outro eixo importante de sua manifestação foi a transformação provocada pelas redes sociais.
Alexandre considera que a internet rompeu uma estrutura que durante décadas concentrava nas grandes empresas de comunicação o poder de selecionar quais informações chegariam ao público. Depois de trabalhar na televisão durante uma época em que os principais telejornais alcançavam dezenas de milhões de brasileiros simultaneamente, ele viu esse modelo ser profundamente alterado pela tecnologia.
Hoje, compara o telefone celular a uma nova praça pública. Durante a palestra, recorreu à imagem da ágora das cidades gregas, onde cidadãos se reuniam para discutir assuntos de interesse coletivo. Para Alexandre, as redes criaram uma versão contemporânea dessa praça, permitindo que qualquer pessoa produza informação, conteste versões e alcance audiências antes acessíveis praticamente apenas aos grandes veículos.
Ao erguer o celular, resumiu essa transformação:
“Isso aqui (o celular), pequenininho, é a nova ágora. Cada pessoa tem uma voz que vai por toda a Terra, sai da cidade e vai para o mundo inteiro.”
Alexandre Garcia vê nesse processo uma perda do antigo monopólio de influência da mídia tradicional. Para ele, veículos que ignoram ou hostilizam sistematicamente parcelas significativas de sua própria audiência acabam estimulando a migração do público para produtores independentes de conteúdo.
A democratização das plataformas, evidentemente, trouxe também um problema inexistente nessa dimensão no antigo sistema: a velocidade e a escala com que informações incorretas ou deliberadamente falsas podem circular. Alexandre reconhece que erros existem nas redes, mas sustenta que a resposta deve estar no confronto público de versões, na crítica e no debate, e não em mecanismos de controle que possam se transformar em censura.
Ao receber o prêmio, fez ainda referência ao lema inscrito no brasão da cidade de São Paulo, “Non ducor, duco” — “Não sou conduzido, conduzo”. A expressão ganhou significado especial em seu discurso. Alexandre a associou à responsabilidade individual e à ideia de que o cidadão não deveria transferir integralmente às instituições, aos políticos ou à imprensa a tarefa de decidir os rumos do país.
Na parte final da manifestação, relacionou essa responsabilidade às eleições. Argumentou que a sociedade precisa dedicar à escolha de seus representantes uma atenção proporcional à importância das consequências políticas dessa decisão e defendeu o respeito às leis e à Constituição como condição básica para o funcionamento institucional.
Poucos jornalistas brasileiros em atividade possuem uma carreira que atravesse tantos períodos distintos da história política e da própria comunicação. Alexandre Garcia começou no rádio, trabalhou na imprensa escrita, acompanhou o poder em Brasília, teve uma passagem profissional pela Presidência durante o governo Figueiredo, passou três décadas na maior rede de televisão do país e, depois dos 70 anos, assistiu à internet alterar radicalmente a relação entre jornalistas, veículos e audiência.
Hoje, ocupa uma posição diferente daquela que teve durante boa parte da carreira: atua principalmente como comentarista independente, construiu audiência própria nas plataformas digitais e mantém uma produção editorial marcada por críticas ao STF, ao governo, à imprensa tradicional e à expansão da interferência estatal sobre a liberdade de expressão.
Foi desse lugar que recebeu o Prêmio Liberdade de Imprensa em São Paulo.
Ao final, Alexandre não ofereceu uma mensagem de otimismo irrestrito. Preferiu falar em ceticismo. Para ele, a preservação das liberdades não está automaticamente assegurada pelas instituições nem pode depender da expectativa de que alguém resolva os problemas em nome da sociedade.
Na visão de Alexandre Garcia, liberdade exige vigilância, confronto de ideias e disposição para contrariar — principalmente quando a opinião predominante está do outro lado.
Felipe Vieira

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