Polícia Federal estima que Vorcaro chegou a pagar R$24 milhões para ‘Sicário’ fazer trabalho sujo
Cerca de 40% desse dinheiro eram rateados com cúmplices de "A Turma"
Documentos da Operação Compliance Zero, tornados públicos após o ministro André Mendonça levantar o sigilo da PET 15.556 e de processos conexos, descrevem Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — chamado de Felipe Mourão nas mensagens e apelidado de “Sicário” no grupo — como o executor operacional de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo relatórios da Polícia Federal anexados aos autos, Mourão recebia R$ 1 milhão por mês para cumprir ordens do banqueiro. O dinheiro saía de empresas ligadas a Vorcaro, como a SUPER Empreendimentos e Participações, e chegava à KING Participações Imobiliárias, pessoa jurídica atribuída a ele. Parte do valor, cerca de R$ 400 mil, era rateada com o grupo chamado “A Turma”, coordenado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A PF estima que os repasses a Mourão superaram R$ 24 milhões desde 2023.
Os investigadores o colocam no centro da estrutura de campo. Vorcaro definia alvos e estratégias; Mourão executava e coordenava. As atribuições descritas incluem acesso irregular a sistemas restritos (entre eles o ePol da própria PF e bases do Ministério Público Federal), monitoramento de autoridades, críticos e processos sigilosos, coação, retirada de conteúdo da internet, ataques hackers e articulação com criminosos, inclusive milicianos no Rio de Janeiro. Ele também aparece como coordenador de outros núcleos, referidos como “Os Meninos” e “Os Editores”.
Um dos elementos destacados nos autos é o envio, por Mourão a Vorcaro, de imagem de consulta em sistema interno da Polícia Federal sobre inquéritos contra o próprio banqueiro. Em outro diálogo, os dois tratam de “contato na Civil de SP” depois que um operador foi intimado. Mensagens reproduzidas nos relatórios mostram Vorcaro pedindo ações contra desafetos, inclusive jornalistas.
Mourão constava entre os investigados da PET 15.556. Em março de 2026, na terceira fase da Compliance Zero, teve prisão preventiva decretada juntamente com Vorcaro, Fabiano Campos Zettel e Marilson Roseno. Foi preso em Belo Horizonte. No local, a PF apreendeu três celulares (ele se recusou a entregar as senhas), relógios Rolex e Cartier, um Land Rover e joias. Na carteira havia documento identificado como da “Polícia Judiciária de Menores”. Poucas horas depois, tentou o suicídio na carceragem da superintendência da PF em Minas Gerais, foi socorrido mas teve morte encefálica. A Segunda Turma do STF, ao referendar a liminar, registrou a perda de objeto da medida em relação a ele por falecimento. Inquérito posterior da PF concluiu que a morte foi suicídio, sem intervenção externa.
A família contestou publicamente o rótulo de “Sicário” no sentido de assassino profissional e afirmou, na época, que não teve acesso imediato às imagens da custódia nem ao laudo do IML. Os documentos agora públicos, no entanto, sustentam que o apelido circulava internamente no grupo e que a PF o associou à coordenação de práticas de intimidação e obtenção ilegal de dados. Mourão já tinha ficha anterior em Minas Gerais, onde também era conhecido como “Mexerica”.
Em resumo, o que os autos descrevem é um operador remunerado de forma fixa e elevada, intermediário entre o comando de Vorcaro e grupos de campo, com acesso a bases oficiais e papel atribuído de monitoramento, pressão e neutralização de adversários do esquema do Master.
Cláudio Humberto

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