Após 11 anos paralisado, monitoramento de tubarões é retomado no Grande Recife
A retomada do monitoramento dos tubarões iniciou na manhã desta sexta (4), com a primeira saída-piloto da equipe do Projeto ECOTUBA, algo que deveria ter acontecido no mês de julho
Após 11 anos paralisado, o monitoramento de tubarões no litoral do Grande Recife foi retomado nesta sexta-feira (4), com a saída-piloto da equipe do Projeto ECOTUBA, algo que deveria ter acontecido desde o mês de julho.
Essa é a primeira das quatro saídas que estão programadas para acontecer até terça (8). Segundo o Governo de Pernambuco, o projeto total terá duração de 24 meses e prevê a marcação de até 50 animais.
O anúncio da retomada do monitoramento foi realizado pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) no dia 4 de junho, três dias após os dois ataques que aconteceram na Praia de Boa Viagem e de Piedade, no Grande Recife, que resultaram, respectivamente, na amputação da perna direita da estudante universitária Marcela Vitória e da perna esquerda de uma criança de 11 anos.
De acordo com o cronograma inicial, as ações de chipagem dos animais estavam previstas para iniciar desde julho, conforme noticiou o Diario no fim do referido mês.
No entanto, o processo precisou aguardar por uma adaptação da embarcação, sendo remarcado para os dias 17 e 23 de agosto. Apesar da remarcação, a saída-piloto só aconteceu de fato nesta sexta (4).
O trabalho de monitoramento é realizado por equipes do ECOTUBA, iniciativa científica vinculada à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e integra o projeto do Cemit, chamado “Monitoramento de Tubarões no Litoral Pernambucano: Integrando Ciência, Tecnologia e Inovação na Prevenção de Incidentes”.
Ao todo, o projeto recebe um investimento de R$ 2.052 milhões, sendo R$ 1.052 milhão oriundos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco (Secti) por meio da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) e R$ 1 milhão aportados pelo Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema).
A intenção do projeto é compreender como os animais utilizam as áreas costeiras do Grande Recife, identificar zonas de risco e gerar informações científicas para a prevenção de incidentes.
Projeto
Conforme foi divulgado pelo Cemit, o monitoramento funcionará em etapas. Antes da captura, dez receptores acústicos submersos serão instalados no litoral da região metropolitana para detectar os animais em um raio de até um quilômetro.
A pesca científica será feita com espinhéis, equipamento de captura de peixes grandes, em pontos estratégicos.
Na embarcação, os tubarões passarão por avaliação biológica, exames (como ultrassom em fêmeas) e coleta de amostras de sangue e tecido. O procedimento todo deve durar em torno de 15 minutos para reduzir ao máximo o estresse do animal.
Antes de devolver o animal ao mar, os cientistas implantarão um transmissor acústico do tamanho de uma pilha, que emite sinais aos receptores.
“Nós iremos fazer todo um protocolo de pesquisa assim que conseguirmos capturar e embarcar esses animais, que serão marcados, medidos, sexados, além de fazermos a coleta de tecido e de sangue. Também será feita uma mini cirurgia para a colocação de um chip, que irá permitir a observação do padrão de deslocamento desse animal aqui na região”, explicou o professor Paulo Oliveira, pesquisador e membro do projeto Ecotuba.
Os dados de deslocamento capturados pela rede também servirão para avaliar se há migração entre a costa e o Arquipélago de Fernando de Noronha, onde já há monitoramento contínuo de tubarões.
De acordo com o professor Paulo Oliveira, a retomada do monitoramento, que, segundo ele, deveria se tornar uma política de Estado, irá auxiliar no entendimento acerca da ecologia e biologia desses animais, possibilitando subsídios para minimizar os incidentes entre tubarões e seres humanos.
“A partir do momento em que a gente conhece como esses animais vivem, a gente vai traduzir essas informações de tal forma que iremos repassar para a população, permitindo que os banhistas possam tomar um banho de mar de uma forma mais segura”.
A equipe de embarque conta com seis pesquisadores. Preferencialmente será estudadas as espécies relacionadas aos incidentes na região: tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) e tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas).
Antigo barco
Marco Zero é o nome do novo barco utilizado, que substitui o antigo, chamado Sinuelo. Segundo Paulo Oliveira, é uma lancha de pesca que foi adaptada para a pesquisa. "A embarcação sofreu algumas alterações no tocante, principalmente, à abertura na região de trás, na popa. Houve um alargamento do portameiro, que é tipo uma varandinha que fica atrás da embarcação, e uma rampa de acesso para que, quando nós capturarmos os tubarões, a gente consiga colocá-los no convés", explica.
De acordo com o pesquisador, "é uma embarcação um pouco menor do que o Sinuelo, mas ela atende a todas as especificações para o trabalho de pesquisa. "No convés já tem uma maca para receber esse animal, para a gente fazer todo o protocolo e, em seguida, devolver esse animal", detalha.
O trabalho de monitoramento é realizado por equipes do ECOTUBA (Fotos: Ed Machado/Governo de Pernambuco)
Atualmente, o monitoramento contínuo dos tubarões ocorre apenas no Arquipélago de Fernando de Noronha, coordenado pela UFRPE, com o apoio do Governo de Pernambuco, por meio da Administração da Ilha, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Econoronha. Com essa iniciativa, a atuação será ampliada para o litoral continental, buscando uma melhor compreensão sobre a conectividade entre esses ambientes marinhos, subsidiando ações de educação, conservação e gestão costeira.
Ataques
Em 2026, o Grande Recife teve três ataques de tubarão: o primeiro em 29 de janeiro, quando um garoto de 13 anos morreu na Praia Del Chifre, em Olinda; e outros dois em 31 de maio e 1° de junho, em Piedade e Boa Viagem, respectivamente, na Zona Sul do Recife. As vítimas foram um menino de 11 anos e uma jovem de 19. Ambos sobreviveram, mas perderam uma das pernas.
O litoral da região metropolitana da capital registra risco crítico de incidentes com os animais em um trecho de 33 quilômetros, entre a Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, e a Praia do Farol, em Olinda. Ao todo, Pernambuco registra 84 incidentes com tubarão desde 1992, quando começou a ser contabilizado de forma oficial.
Bartô Leonel


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